26.4.10

O Caldo de Pedra



Um frade andava no peditório; chegou à porta de um lavrador, mas não lhe quiseram aí dar nada. O frade estava a cair com fome, e disse:
- Vou ver se faço um caldinho de pedra.
E pegou numa pedra do chão, sacudiu-lhe a terra e pôs-se a olhar para ela para ver se era boa para fazer um caldo. A gente da casa pôs-se a rir do frade e daquela lembrança. Diz o frade:
- Então nunca comeram caldo de pedra? Só lhes digo que é uma coisa muito boa.
Responderam-lhe:
- Sempre queremos ver isso.
Foi o que o frade quis ouvir. Depois de ter lavado a pedra, disse:
-Se me emprestassem aí um pucarinho.
Deram-lhe uma panela de barro. Ele encheu-a de água e deitou-lhe a pedra dentro.
- Agora se me deixassem estar a panelinha aí ao pé das brasas.
Deixaram. Assim que a panela começou a chiar, disse ele:
- Com um bocadinho de unto é que o caldo ficava um primor.
Foram-lhe buscar um pedaço de unto. Ferveu, ferveu, e a gente da casa pasmada com o que via. Diz o frade, provando o caldo:
- Está um bocadinho insosso; bem precisa de uma pedrinha de sal.
- Também lhe deram o sal. Temperou, provou, e disse:
- Agora é que com uns olhinhos de couve ficava que os anjos o comeriam.
A dona da casa foi à horta e trouxe-lhe duas couves tenras. O frade limpou-as e ripou-as com os dedos deitando as folhas na panela.
Quando os olhos já estavam aferventados, disse o frade:
- Ai, um naquinho de chouriço é que lhe dava uma graça…
Trouxeram-lhe um pedaço de chouriço; ele botou-o na panela, e enquanto se cozia, tirou do alforge pão e arranjou-se para comer com vagar. O caldo cheirava que era um regalo. Comeu e lambeu o beiço; depois de despejada a panela ficou a pedra no fundo. A gente da casa, que estava com os olhos nele, perguntou-lhe:
- Ó senhor frade, então a pedra?
Respondeu o frade:
- A pedra lavo-a e levo-a comigo para outra vez.
E assim comeu onde não lhe queriam dar nada.

Teófilo Braga, Contos Tradicionais do Povo Português



I

1. “ Um frade andava ao peditório”
1.1. Por que razão andava o frade a pedir?

1.2. Houve receptividade por parte das pessoas? Justifica a tua resposta fundamentando-a com elementos textuais.

2. “ A gente da casa pôs-se a rir do frade e daquela lembrança.”
2.1. Indica o motivo que suscitou o riso na “ gente da casa”
2.2. Como definirias o comportamento do frade neste momento da acção?

3. “ Foi o que o frade quis ouvir.”
3.1. Explica o sentido da frase acima transcrita.
3.2. Enumera de forma sucinta as várias fases da “confecção” do caldo de pedra.
3.3 Neste momento como encaras a atitude da “gente da casa”?

4. “Assim comeu onde não lhe queriam dar nada.”
4.1. Caracteriza psicologicamente o frade. Enriquece a tua resposta recorrendo a elementos textuais.

5. Escreve um sinónimo de “naquinho" e de “regalo”.

6. Escreve um antónimo de “insonso” e de “despejada”.

7. Classifica o narrador quanto à presença.

8. Retira do texto um exemplo de narração e um de diálogo.

II

a) Um frade chegou à porta de um lavrador.
b) Só lhes digo que é uma coisa muito boa.

1. Classifica morfologicamente as palavras:
um -
chegou -
de -
lavrador -
lhes -
é -
muito -
boa -

2. Faz a análise sintáctica da frase:
Deram ao frade um pedaço de unto.

3. Atenta na frase:
O frade cozinhou os ingredientes e agradeceu ao lavrador.
3.1. Reescreve a frase substituindo os sublinhados por pronomes.
3.2. Reescreve a frase obtida em 3.1. na negativa.

4. Efectua modificações, se necessário, e reescreve as frase no tipo e na forma indicada.
O frade comeu o caldo de pedra.
a)Tipo exclamativa, negativa.
b)Tipo interrogativa, afirmativa.
c) Tipo imperativa, negativa.


III

Neste texto, o frade venceu com a sua esperteza. Conta ou inventa uma história e diz qual a lição que ela nos transmite ( escreve no mínimo 15 linhas).