11.3.10

Três Personagens Transviadas

Escrevo num computador instalado num móvel polido que tem uma prateleira que se puxa. Muito vulgarizados, tais móveis podem encontrar-se em qualquer loja informática das grandes. Menciono este dado pessoal porque ele estabelece o cenário de desconfortáveis ocorrências, há pouco mais duma hora, aqui no meu escritório. Possuir um móvel destes não é coisa de que alguém se gabe, e eu preferiria ocultar o facto, se não fosse necessário confessá-lo.
Estava a premir a tecla F 11, quando um homenzinho magro, de fato escuro completo e chapéu fora de moda emergiu atrás do teclado e começou a fazer esforços para se içar para o tampo superior, onde se agigantam monitor e impressora. Levantava os braços, numa gesticulação que me pareceu desesperada e dava grandes saltos, em cima da consola. Calçava sapatos ferrados que tiravam do plástico x sons fortes lembrando bicadas repetidas de catatua . […]
Mas havia já outra personagem. À claridade do monitor, uma jovem loura, de blusa rosa e saia preta, passeava ao comprido pelo tampo do móvel, esfregando uma na outra as mãos ansiosas. Parecia estar muito preocupada. Usava bandos e calçava saltos altos. Podia estragar-me o verniz. Aproximei a cara. Tranquilizei-me. O peso dela não era bastante para que os saltos de agulha perfurassem a mobília. A mulherzinha não deu por mim. Continuava a andar, de um lado para o outro, fazendo soar, ao de leve, no móvel o tique-tique dos saltos. Ao debruçar-me, pareceu-me ouvir, muito sumidamente, uma vozinha angustiada: «Oh, Augusto, Augusto!» Mas não garanto.
[…] O receio de que pudessem surgir mais personagens inquietou-me. Qual Augusto! Não me apetecia nada que a casa se me enchesse de cavaleiros, de ciclistas, de pugilistas e meninas do cancan. Ou de tropa. Não, é que podia perfeitamente aparecer um pelotão, a formar, em ordem unida, no braço do meu sofá orelhudo…
Em circunstâncias difíceis como esta, não há nada como recorrer a um perito. Telefonei a um amigo, que é escritor. Atendeu maldisposto, porque foi acordado. É um escritor dos diurnos, nove às cinco.
«Ouve, meu caro, desculpa lá, mas estão a aparecer-me personagens em volta do computador. O que é que eu faço?»
O meu amigo formulou muitas perguntas sábias. É um grande especialista de personagens. Se eram pesadas ou leves, grandes ou pequenas, silenciosas ou barulhentas, sentimentais ou secas. […]
Do lado de lá do telefone o meu amigo fez um «ts» de rabugice. Desconfio de que trata as
personagens dele com uma certa dureza. É o que dá a experiência.
«Escuta, não andas agora a escrever umas crónicas, uns comentários, ou lá o que é?» Como é que ele sabia? Isto é uma cidade muito bem informada. Admiti.
«Então, faz o seguinte: aprisiona-as no texto.»

Mário de Carvalho, «Três Personagens Transviadas», Contos Vagabundos, Lisboa, Caminho, 2000


1. O texto relata acontecimentos invulgares. Transcreve do primeiro parágrafo a expressão utilizada pelo narrador para se referir a esses acontecimentos.

2. Indica dois aspectos comuns às personagens «homenzinho magro» e «jovem loura»

3. Identifica o recurso expressivo presente na expressão «de cavaleiros, de ciclistas, de pugilistas e meninas do cancan» .

4. O narrador decide telefonar a um amigo escritor. Indica o que motivou o telefonema e justifica o facto de o narrador ter recorrido a um escritor.

5. Relê a frase: «Então, faz o seguinte: aprisiona-as no texto.»
Explica a sugestão do amigo escritor, referindo de que modo essa sugestão pode resolver o problema do narrador.

6 . Uma editora está a organizar duas antologias de textos narrativos com os títulos seguintes.

A escrita sobre a escrita
O fantástico na escrita

Em qual dessas antologias incluirias o texto de Mário de Carvalho que acabaste de ler?
Justifica a tua opção, fundamentando-a com elementos do texto.