3.3.10

Madalena

...e lhe regou de lágrimas os pés,
e os enxugava com os cabelos da sua cabeça.
Evangelho de S. Lucas.

Ó Madalena, ó cabelos de rastos,
Lírio poluído, branca flor inútil,
Meu coração, velha moeda fútil,
E sem relevo, os caracteres gastos,

De resignar-se torpemente dúctil,
Desespero, nudez de seios castos,
Quem também fosse, ó cabelos de rastos,
Ensanguentado, enxovalhado, inútil,

Dentro do peito, abominável cómico!
Morrer tranquilo, - o fastio da cama.
Ó redenção do mármore anatómico,

Amargura, nudez de seios castos,
Sangrar, poluir-se, ir de rastos na lama,
Ó Madalena, ó cabelos de rastos!


Camilo Pessanha



1. O que inspira Madalena ao eu?

2. Faça o levantamento das expressões que designam Madalena. (Note a conjugação de contrários).

3. De que forma o sentido de «velha moeda fútil» aproxima Madalena do «coração» do eu?

4. Que verso nos remete para a ideia de que o «coração» aceita as máscaras que lhe são impostas?

5. Como se insere a morte no poema?

6. Só resta ao coração assumir-se. Que verso do último terceto nos dá essa ideia?