4.3.10

Imagens que passais pela retina

(A João Jardim)

Imagens que passais pela retina
dos meus olhos, porque não vos fixais?
Que passais como a água cristalina
por uma fonte para nunca mais!....

Ou para o lago escuro onde termina
Vosso curso, silente de juncais,
E o vago medo angustioso domina,
- Porque ides sem mim, não me levais?

Sem vós o que são os meus olhos abertos?
- O espelho inútil, meus olhos pagãos!
Aridez de sucessivos desertos...

Fica sequer, sombra das minhas mãos,
Flexão casual de meus dedos incertos,
- Estranha sombra e movimentos vãos.

Camilo Pessanha


I

1. Faça a classificação formal do poema.

2. O poeta procura uma relação de si próprio com a realidade.
2.1. Note como a pessoa verbal utilizada nos reforça essa imagem de relação.
2.2. O mundo exterior aparece conotado com a fugacidade, com a efemeridade; que elementos, a nível morfo-sintáctico e semântico, nos transmitem essa sugestão?
2.3. «Sem vós o que são meus olhos abertos?»
Que comentário lhe merece esta interrogação, na perspectiva da relação atrás indicada?
2.3.1. Relacione-a com os dois versos subsequentes — comente as imagens utilizadas para defini-rem os olhos.

3. Na segunda quadra sugere-se a temática da morte, ligada à ideia, atrás apontada, da efemeridade das coisas.
3.1. Que elementos sugerem essa ideia?
3.2. Que visão da realidade nos fornece essa sugestão?

4. No segundo terceto, o poeta dirige-se à sombra das suas próprias mãos.
4.1. Comente o modo verbal utilizado.
4.2. Que valor atribui ao facto de se tratar das sombras e não das mãos?
4.3. Comente o valor semântico dos adjectivos utilizados nos dois últimos versos.