31.3.10

Frei Luís de Sousa, Acto II, Cena II


CENA II
Maria, Telmo e Manuel de Sousa Coutinho

Manuel – Aquele era D. João de Portugal, um honrado fidalgo, e um valente cavaleiro.
Maria (respondendo sem olhar quem lhe fala) – Bem mo dizia o coração.
Manuel (desembuçando-se e tirando o chapéu com muito afecto) – Que te dizia o coração, minha filha?
Maria (reconhecendo-o) – Oh meu pai, meu querido pai! Já me não diz mais nada o coração senão isto. (Lança-se-lhe nos braços e beija-o na face muitas vezes) – Ainda bem que viestes. – Mas de dia! … Não tendes receio, não há perigo já?
Manuel – Perigo pouco. Ontem à noite não pude vir; e hoje não tive paciência para aguardar todo o dia: vim bem coberto com esta capa…
Telmo – Não há perigo nenhum, meu senhor; podeis estar à vontade e sem receio. Esta madrugada muito cedo estive no convento e sei pelo senhor Frei Jorge que está, se pode dizer, tudo concluído.
Manuel – Pois ainda bem. Maria! E tua mãe, tua mãe, filha?
Maria – Desde ontem está outra…
Manuel (em acção de partir) – Vamos a vê-la.
Maria (retendo-o) – Não, que dorme ainda.
Manuel – Dorme? Oh, então melhor. Sentemo-nos aqui, filha, e conversemos. (Toma-lhe as mãos; sentam-se) Tens as mãos tão quentes! (Beija-a na testa) E esta testa, esta testa… escalda! Se isto está sempre a ferver! Valha-te Deus, Maria! Eu não quero que tu penses!
Maria – Então que hei-de eu fazer?
Manuel – Folgar, rir, brincar, tanger na harpa, correr nos campos, apanhar as flores… E Telmo que não te conte mais histórias, que te não ensine mais trovas e solaus. Poetas e trovadores padecem todos da cabeça… e é um mal que se pega.
Maria – Então para que fazeis vós como eles? … Eu bem sei que fazeis.
Manuel (sorrindo) – Se tu sabes tudo! Maria, minha Maria! (Animando-a) Mas não sabias ainda agora de quem era aquele retrato…
Maria – Sabia.
Manuel – Ah! Você sabia e estava fingindo?
Maria (gravemente) – Fingir não, meu pai. A verdade… é que eu sabia de um saber cá de dentro; ninguém mo tinha dito, e eu queria ficar certa.
Manuel – Então adivinhas, feiticeira. (Beija-a na testa) Telmo, ide ver se chamais meu irmão: dizei-lhe que estou aqui.

Almeida Garrett, Frei Luís de Sousa


I

1 – O início desta II cena (II Acto) começa com Manuel a dar uma informação à sua filha Maria.
1.1 – Indica qual é essa informação.
1.2 – Manuel responde à filha sem problema algum, quando na cena anterior, Telmo fizera precisamente o contrário, isto é, não fora capaz de dizer nem de dar esse esclarecimento a Maria. Compara e justifica a atitude e o comportamento das duas personagens.
1.3 – Demonstra, retirando expressões do texto, que Maria não necessitava de uma resposta para saber de quem era aquele retrato.

2 – A acção apresentada no II Acto passa-se num contexto espacial (espaço) diferente do apresentado no I Acto.
2.1 – Houve uma personagem que reagiu de forma negativa a esse espaço. Escreve o nome dessa personagem.
2.2 – Identifica os dois cenários, isto é, o do I Acto e o do II Acto.
2.3 – Indica em que medida a mudança do espaço contribuiu para a criação de uma atmosfera trágica.

3 – Houve um acontecimento, sucedido no final do I Acto, que originou essa alteração de espaço e que constitui a peripécia da obra a que pertence o excerto que se está a analisar.
3.1 – Refere qual foi esse acontecimento.
3.2 – Justifica tal acontecimento relacionando-o com o facto de nos remeter para um contexto social e político.

4 – Explicita as relações existentes entre as personagens presentes nesta cena (Manuel e Maria; Manuel e Telmo) e mostra, com exemplos do texto, a forma de linguagem aplicada e adequada a cada situação concreta de comunicação.

5 – Dos verbos “rir”, “brincar” e “correr” escolhe três substantivos da mesma família etimológica e constrói três frases com esses substantivos.

6 – Atenta nestas frases: “Garrett decidiu escrever a peça Frei Luís de Sousa. Recolheu informações sobre o domínio filipino. Garrett queria conhecer bem o contexto histórico.”
6.1 – Constrói uma só frase, frase complexa, integrando o mesmo conteúdo informativo das frases de cima e aplicando-lhe os termos quando e porque para estabelecer entre elas relações de tempo e causa.


II

1 – Lê atentamente o comentário que se segue:

“É o regresso do Encoberto que perturba o estádio feliz do presente e conduz à catástrofe final: a tragédia resulta da inversão opressiva dos tempos (…).”

Maria de Lourdes Cidraes Vieira, “O Frei Luís de Sousa – Ou a Segunda Morte de D. Sebastião”

Tendo em conta o estudo que fizeste de Frei Luís de Sousa, elabora uma composição bem estruturada e cuidada onde procures comprovar que há a existência de uma forte componente trágica nessa obra de Almeida Garrett.