26.3.10

Foi remédio santo!

Para que a catástrofe fosse total, o tal pontapé em cheio foi reforçado por uma presença detestável, ali mesmo, na “minha” paragem de autocarro, com cara de iogurte com pedaços, uma cara cheia de altos e baixos, borbulhas que lembram a paisagem rugosa e pedregosa, árida e fria, da superfície de Marte, gigantescas crateras com 24 metros de diâmetro, resultantes do impacto de um meteorito, há 23 milhões de anos, montanhas de acne com 48 metros de altura, o ar mais imbecil da via láctea, o rapaz mais parvalhão, aborrecido, incómodo e feio da escola: o Falinhas Mansas. Estava lá, mas não devia – ele usa habitualmente a paragem do autocarro do bairro dele que, felizmente, fica a mais de dez minutos de distância, e usa-a por mero bom senso, já que passa à porta de casa dele e pára à porta da escola. Deve ter acordado antes do mundo nascer para estar ali àquela hora – e, mal me viu, saiu de transe ou acordou, sacudiu as borbulhas, arrastou o esqueleto, avançou dois passinhos, pôs-me a mão no ombro, repelente, só não parecia uma cobra porque as cobras não têm mãos.
Notei que ao falar deixava sair pela boca um cheiro esquisito, flocos de aveia australianos, leite gordo holandês, talvez uma fatia de pão com manteiga açoriana e pasta de dentes com hortelã serrana, à mistura com uma coisa qualquer, pastilha elástica ou isso, americana ou dessas que não têm marca nem origem, mas que eu acho que são feitas numa terra chamada Formosa, ou na China, por operários que trabalham a troco de pouco salário e muito sofrimento, que usam os restos das bolas de basquete e das solas dos ténis de boa marca, que também fazem.
Dei dois passos atrás, com pavor, e ele deu três passos à frente, com descaramento e determinação e eu gritei: “este rapaz quer passar à frente. Está a furar a fila!”
Foi remédio santo, logo uma senhora gorda começou a protestar, um homem magro deu-lhe um abanão, uma mulher carregada com malas e sacos pregou um tabefe ao Falinhas Mansas, que, com falinhas mansas, explicou-se, desfazendo-se em sorrisos e saltitando ora num ora noutro pé, como se estivesse aflito para ir à casa de banho ou atrás da árvore mais próxima, sanitário público de muitos rapazes como ele:
- Sou colega dela, andamos na mesma escola, quero apenas [...]

Uma Argola no Umbigo, Alexandre Honrado, Ed. AMBAR



I

1. Indica as personagens mais relevantes do texto.

2. Presta atenção ao primeiro parágrafo, em especial à caracterização do Falinhas Mansas.
2.1. Por que motivo foi usada a expressão “cara de iogurte com pedaços”?
2.2. Que outras expressões remetem para a caracterização da cara do rapaz?
2.3. Explica o sentido da expressão “o ar mais imbecil da via láctea”.
2.4. Indica o nome que o adjectivo “repelente” está a qualificar.

3. Atenta agora no segundo parágrafo.
3.1. Faz o levantamento de palavras que referem países ou regiões.

4. Presta atenção ao terceiro parágrafo.
4.1. Explica o motivo da reacção inicial da narradora.
4.2. Qual te parece ser o sentimento que a narradora nutre pelo colega?

5. A explicação final do Falinhas Mansas não está completa. Imagina-a e regista-a, mas tem atenção que ele vai dar uma explicação falsa.

6. Classifica o narrador desta história quanto à presença, apoiando-te em expressões do texto.

7. Localiza a acção no espaço. Justifica a tua resposta.

8. Retira do texto a expressão que comprova que a acção se desenrola de manhã.

9. Retira do texto um exemplo de narração e um exemplo de diálogo.


II

1.
Encontra no texto um exemplo para cada determinante:
a) determinante artigo indefinido, feminino, singular
b) determinante indefinido, masculino, singular
c) determinante possessivo, feminino, primeira pessoa do singular (um possuidor)

2. Classifica morfologicamente as palavras destacadas nos excertos que se seguem:
a) O Falinhas Mansas era o rapaz mais imbecil da escola.
b) A narradora e aquele rapaz andavam na mesma escola.
c) Ele não usa a minha paragem, usa outra.

3. Analisa sintacticamente as frases que se seguem.
a) O Falinhas Mansas era muito tímido.
b) O rapaz comprou flores à amiga.
c) Ambos moravam em Lisboa.

III

Já alguma vez te sentiste apaixonado por alguém que não repara em ti? Imagina que és o Falinhas Mansas. Como reagirias naquela situação?
Escreve um pequeno texto que dê continuidade ao encontro dos dois colegas na paragem do autocarro. Agora és tu (Falinhas Mansas) o narrador!
(Cerca de 150 palavras.)