26.3.10

Dias de Festa e Outras Histórias

Quando o pai arranjou trabalho em Lisboa e resolveu levar consigo a mulher e o filho, o Augusto ficou muito contente. Ele nunca tinha ido a Lisboa; só uma vez a Viseu, que até era uma cidade bonita, mas Lisboa havia de ser ainda mais e maior.
Com muitos automóveis, autocarros e um comboio que andava por debaixo do chão (tinham-lhe contado). E casas altas. Com dez andares! E um rio com vapores. E uma grande ponte.
Mas afinal…
Ao fim de um mês, o Augusto não se sentia tão feliz como julgava que havia de estar.
Lisboa seria uma cidade grande e bonita, seria, mas era talvez grande demais.
O Augusto ainda não tinha visto a estátua, nem a ponte, nem o rio com vapores, nem tinha andado no comboio debaixo do chão, nem…nem…
Assim brincava na rua, ou no pátio da escola.
Mas também aí…
No primeiro dia, quando a professora o mandou ler e o Augusto começou: « No chimo da iárvore o pacharinho tinha o ninho que era a chua caja…», os outros largaram-se a rir.
O Augusto parou. Não percebia o que tivesse dito que fosse tão engraçado. Lá na terra, a professora até dizia que ele era bom aluno e lia muito bem.
- Continua Augusto – disse a professora de Lisboa, depois de ter mandado calar os outros.
Leu o trecho todo até ao fim da página, mas agora com menos confiança, cheio de medo de que as gargalhadas o interrompessem novamente.
Mas ninguém se riu mais.
- Muito bem Augusto! – disse a professora sorrindo para ele.
E depois explicou que a maneira de falar do Augusto era a pronúncia da Beira Alta, nem pior nem melhor que a do Alentejo, a do Algarve, a do Minho, a dos Açores, a da Madeira… Ou a de Lisboa. Todas estavam certas e tudo era Língua Portuguesa.
Os outros acreditaram ou não. Dentro da aula nunca mais fizeram troça dele, mas lá fora chamavam-lhe o Chantos (Augusto dos Santos era o nome dele), e não lhe ligavam importância nenhuma. Naturalmente, porque já eram conhecidos e amigos uns dos outros desde a primária, e o Augusto acabava de chegar.

Maria Isabel Mendonça Soares, Dias de Festa e Outras Histórias


I

1. Classifica o narrador quanto à sua presença na acção. Justifica.

2. Quantos parágrafos têm o texto?

3. Identifica o protagonista do texto.

4. Que alteração se verificou na sua vida?

5. “ Ao fim de um mês, o Augusto não se sentia tão feliz como julgava que havia de estar”
5.1. Por que razão não se sentia Augusto “tão feliz como julgava que havia de estar”?

6. Quando chegou à escola, na capital, passou a ser motivo de troça.
6.1. Explica porquê.

7. Além da pronúncia, que outros motivos levaram Augusto a sentir-se desadaptado?

8. Redige a frase lida por Augusto, corrigindo a ortografia resultante da pronúncia.


II

1. O Augusto ficou muito contente.
1.1. Indica em que grau se encontra o adjectivo presente na frase.

1.2. Reescreve a frase colocando o adjectivo no grau superlativo absoluto sintético.

2. “ Lá na terra, a professora até dizia que ele era bom aluno e lia muito bem. “
2.1. Analisa morfologicamente as palavras destacadas.


3. Analisa sintacticamente a seguinte frase:
Naquele dia, a professora apresentou o Augusto aos colegas.


III

Na tua opinião, o que poderia ser feito para integrar o rapaz na turma e na escola? Redige um pequeno texto ( escreve no mínimo quinze linhas ).