25.12.09

Dia de Natal

Hoje é dia de ser bom. 

É dia de passar a mão pelo rosto das crianças, 

de falar e de ouvir com mavioso tom, 

de abraçar toda a gente e de oferecer lembranças. 



É dia de pensar nos outros - coitadinhos - nos que padecem, 

de lhes darmos coragem para poderem continuar a aceitar a sua miséria, 

de perdoar aos nossos inimigos, mesmo aos que não merecem, 

de meditar sobre a nossa existência, tão efémera e tão séria. 



Comove tanta fraternidade universal. 

É só abrir o rádio e logo um coro de anjos, 

como se de anjos fosse, 

numa toada doce, 

de violas e banjos, 

entoa gravemente um hino ao Criador. 

E mal se extinguem os clamores plangentes,
a voz do locutor 
anuncia o melhor dos detergentes. 



De novo a melopeia inunda a Terra e o Céu e as vozes crescem num fervor patético. 

(Vossa Excelência verificou a hora exacta em que o Menino Jesus nasceu? 

Não seja estúpido! Compre imediatamente um relógio de pulso antimagnético.) 

Torna-se difícil caminhar nas preciosas ruas. 

Toda a gente se acotovela, se multiplica em gestos, esfuziante. 

Todos participam nas alegrias dos outros como se fossem suas 

e fazem adeuses enluvados aos bons amigos que passam mais distante.

Nas lojas, na luxúria das montras e dos escaparates, 

com subtis requintes de bom gosto e de engenhosa dinâmica, 

cintilam, sob o intenso fluxo de milhares de quilovates, 

as belas coisas inúteis de plástico, de metal, de vidro e de cerâmica. 



Os olhos acorrem, num alvoroço liquefeito, 

ao chamamento voluptuoso dos brilhos e das cores. 

É como se tudo aquilo nos dissesse directamente respeito, 

como se o Céu olhasse para nós e nos cobrisse de bênçãos e favores. 

A Oratória de Bach embruxa a atmosfera do arruamento. 

Adivinha~se uma roupagem diáfana a desembrulhar-se no ar. 

E a gente, mesmo sem querer, entra no estabelecimento 

e compra - louvado seja o Senhor! - o que nunca tinha pensado comprar. 



Mas a maior felicidade é a da gente pequena. 

Naquela véspera santa 

a sua comoção é tanta, tanta, tanta, 

que nem dorme serena. 



Cada menino 

abre um olhinho 

na noite incerta 

para ver se a aurora 

já está desperta. 

De manhãzinha 

salta da cama, 

corre à cozinha 

mesmo em pijama. 



Ah!!!!!!!!!! 



Na branda macieza 

da matutina luz 

aguarda~o a surpresa 

do Menino Jesus. 



Jesus, 

doce Jesus, 

o mesmo que nasceu na manjedoura, 

veio pôr no sapatinho 

do Pedrinho 

uma metralhadora. 



Que alegria 

reinou naquela casa em todo o santo dia! 

O Pedrinho, estrategicamente escondido atrás das portas, 

fuzilava tudo com devastadoras rajadas 

e obrigava as criadas 

a caírem no chão como se fossem mortas: 

tá-tá-tá-tá-tá-tá-tá-tá-tá-tá-tá-tá-tá. 



Já está! 

E fazia-as erguer para de novo matá-las. 

E até mesmo a mamã e o sisudo papá 

fingiam 

que caíam 

crivados de balas. 



Dia de Confraternização Universal, 

dia de Amor, de Paz, de Felicidade, 

de Sonhos e Venturas. 

É dia de Natal. 

Paz na Terra aos Homens de Boa Vontade. 

Glória a Deus nas Alturas.

António Gedeão



1. «Hoje é dia de ser bom» é o 1º verso deste poema, que encerra imediatamente uma das suas ideias centrais.
1.1 Identifique essa ideia central.
1.2 Faça o levantamento de outros versos que se relacionem com a mesma ideia.

2. «É dia de pensar nos outros -coitadinhos -nos que padecem» (v. 5). O poeta coloca-se aparentemente do lado oposto ao dos que padecem. Na sequência desta ideia
2.1 Comente a intenção do vocábulo «coitadinhos».
2.2 Comente também a sua posição no verso -entre travessões.
2.3 Refira-se ao valor do diminutivo.

3. Todo o poema está repassado de ironia, como por exemplo no verso 6: «de lhes darmos coragem para poderem continuar a aceitar a sua miséria».
3.1 Explique em que consiste a ironia do verso.
3.2 Escolha e transcreva outros versos que também se encontrem carregados de ironia.
3.3 Apresente as razões da sua escolha.

4. O poema debruça-se sobre problemas de solidariedade universal.
4.1 Identifique a opinião do poeta sobre o entendimento universal
4.2 e sobre a sinceridade com que os homens vivem certos momentos.
4.3 Dê razões para as suas respostas e apoie-as com versos do poema.

5. «E mal se extinguem os clamores plangentes / a voz do locutor / anuncia o melhor dos detergentes» (vv. 15-17).
5.1 Comente o valor do contraste inesperadamente apresentado: hino ao criador -publicidade.
5.2 Poderá ver-se, no passo transcrito, uma crítica aos meios de comunicação.
5.2.1 Apresente as razões dessa crítica.

6. Atente num outro passo do poema que aponta para essa crítica:
«Vossa Excelência verificou a hora exacta em que o Menino Jesus nasceu? Não seja estú-pido! Compre imediatamente um relógio de pulso antimagnético»> (vv. 20-21).
6.1 Refira-se à possibilidade ou impossibilidade desse anúncio na radiodifusão.
6.2 Identifique a intenção do poeta com a inclusão desse anúncio no poema.
6.3 Comente ainda a intenção específica do contraste de tratamento: Vossa Excelência / não seja estúpido.

7. A sociedade de consumo aparece duramente criticada na 4ª estrofe do poema.
7.1 Através do levantamento de vocábulos ou expressões, indique nessa estrofe
7.1.1 classes sociais especificamente referidas
7.1.2 O aproveitamento comercial do Natal
7.1.3 os mil artifícios que nos levam a comprar «belas coisas inúteis».
7.2 Na estrofe seguinte, observam-se os efeitos da sociedade de consumo. Refira-se-lhes.

8. Em dado passo, o poema deixa de se centrar no mundo dos adultos, para focar o da gente pequena.
8.1 Localize o passo a que nos referimos.
8.2 Indique as razões que levam o poeta a desviar-se (agora) para os pequeninos.

9. «Naquela véspera santa / a sua comoção é tanta, tanta, tanta, / que nem dorme serena.» (vv. 39-41).
9.1 Divida e classifique as orações do período transcrito.
9.2 Classifique morfologicamente o vocábulo «tanta».
9.3 Comente o valor estilístico da repetição do vocábulo.

10. A sétima estrofe do poema apresenta uma mudança de ritmo.
10.1 Indique as razões dessa total mudança de ritmo.

11. «Ah!!!!!!!!!!!» (v. 51)
11.1 Classifique morfologicamente o vocábulo.
11.2 Comente o seu valor estilístico, bem como o da pontuação utilizada.

12. Leia, com a máxima atenção, a penúltima estrofe: «Jesus [...] / crivados de balas».
12.1 De Jesus, diz o poeta que é «doce» e «o mesmo que nasceu na manjedoura».
12.1.1 Identifique a intenção que presidiu à escolha dessas expressões atribuídas a Jesus.
12.1.2 Mencione a intenção do contraste estabelecido pelo poeta entre esses atributos e o presente que o Pedrinho recebeu em nome do Menino Jesus: uma metralhadora.
12.2 Refira-se ao valor dos diminutivos em «sapatinho» (v.59) e «Pedrinho» (v.60).
12.3 Comente o contraste existente entre esses diminutivos e o vocábulo «metralhadora» (v. (1).

13. «Que alegria / reinou naquela casa em todo o santo dia!» (vv. 62-63).
13.1 Para o significante «santo» poderemos encontrar dois significados. Identifique-os.
13.2 Classifique o signo linguístico que possui um só significante e mais que um significado.

14. Transcreva, da estrofe em questão (penúltima), todos os vocábulos que pertencem ao campo lexical de «guerra}}.

15. Registe a presença de uma onomatopeia referente a esse campo lexical.

16. Verifique a existência de rima no poema.
16.1 Apresente um exemplo de
16.1.1 rima interpolada
16.1.2 rima cruzada
16.1.3 rima emparelhada.

17. A última estrofe é uma conclusão do poema que, aparentemente, parece interromper a sequência até então estabelecida.
17.1 Explique porque é apenas aparente essa interrupção.
17.2 Comente, finalmente, a intenção dessa estrofe.

18. Procure estabelecer o estrato social a que pertence o Pedrinho, com base nos elementos fornecidos pelo poema.

19.
19.1 Indique os versos que correspondem à gravura
19.2 Observe e indique a única «liberdade» que o ilustrador tomou, introduzindo determi-nado pormenor que não aparece explicitamente referido no poema.
19.3 Relacione o objectivo da gravura com a intenção do poema.

20. Em conclusão, refira-se ao valor do Natal para o poeta.