11.3.10

Cartas a Mariana


A carta que abaixo se transcreve é dirigida a Mariana Alcoforado (1640-1723), uma das religiosas da Ordem de Santa Clara, do Convento da Conceição, em Beja. Em 1810, o jornal L'Empire divulgou o nome de Mariana como autora das já afamadas Lettres Portugaises, cinco cartas de amor dedicadas ao cavaleiro francês Noël Bouton, Marquês de Chamilly.
Leia, atentamente, a carta ficcionada, da autoria de José Luís Peixoto, tendo em atenção a diferença de épocas que distancia este autor contemporâneo da presumível autora das cinco cartas de amor a Chamilly.


Fw: Love

Amor, escrevo-te e, mais uma vez, cada palavra é um cofre onde deposito toda a minha esperança. Sei que se os teus dedos de marfim abrirem a fechadura de cada unia destas palavras, sei que se os teus olhos tocarem o brilho do seu interior, essa será única recompensa que meu coração necessita para continuar, segundo a segundo, a cumprir o seu trabalho cada vez mais árduo, cada vez mais difícil de justificar.
Amor, desde que cheguei, os corredores do palácio têm sido as testemunhas mais fiéis da mi-nha mágoa. Caminho abandonado pela sua distância e, às vezes, parece-me que todos os passos que perdi, somados, seriam suficientes para de novo me encontrar no consolo dos teus braços, para de novo me encontrar. Confidentes dos meus pensamentos mais íntimos, estes corredores são demasiado infinitos. Neles, envelheço e, sendo nada, aproximo-me de ser ainda menos.
Amor, irremediavelmente, o tempo sepulta cada instante que passámos juntos. Acredita, sou como o guerreiro que apenas possui uma espada para resistir contra a tempestade. Até aqui. tenho encontrado forças para revolver essa espada sobre a minha cabeça a uma velocidade tal que, nem uma gota, nem metade de uma gota, encontrou meios de pousar sobre o corpo que tocaste, profanando com a sua pureza, a pureza ainda maior do teu desejo passado. É assim que o teu rosto brilha ainda dentro de mim, mas não sei durante quanto tempo poderei aguentar.
Amor, um ponto foi a minha desgraça. Quando te dei o meu endereço de correio eletrónico, esqueci-me de colocar o ponto maldito que separa o meu título do meu nome. Não imaginas o que sofri, não imaginas as insónias, ao imaginar-te a enviar-me e-mails constantemente devolvidos. Tu a julgares porventura que não te amo. Ao mesmo tempo, estou certo que recordas o valor das palavras que dividimos. Por essa razão, custa conformar-me que não tenhas tentado usar todas as combinações habituais para endereços de correio eletrónico: pontos, hífenes e underscores. Não faças caso, coelhinha, estas são as sombras que me enevoam o pen-samento nos dias em que duvido de tudo.
Amor, não foi por descuido que guardei o lenço de papel onde escreveste o teu endereço de correio eletrónico, junto aos mantimentos, foi porque não tinha outro lugar onde guardá-lo. Hoje, penitencio-me mil vezes, por não ter tido o engenho de decorá-lo imediatamente, de guardá-lo no espaço da memória onde, displicentemente, acumulo informaação desnecessária, como o número de contribuinte ou o NIB. Quando estou mais triste, penso que não te mereço. Quando a esperança me reconquista, penso que não te terias agradado de mini se fosse de outra maneira.
Amor, tento todas as palavras que te digam e acrescento-lhes @, tento recordar-me do endereço que escreveste com a tua caligrafia sagrada no lenço de papel, fiz todas as buscas que consegui no Google e, em vez do teu endereço, apenas encontrei o teu nome na lista de inscrições do convento, num abaixo-assinado contra a fome no mundo e fiquei a saber que ganhaste uma menção honrosa nuns jogos florais em 98.
Amor, existem 160.800.762 resultados para a palavra desespero. De cada vez que te envio um e-mail e chega devolvido, o meu nome aparece nos resultados de 1 a 25. Escrevo-te para que me escrevas. Escrevo-te para que saibas que teu é o meu amor.

José Luís Peixoto, Cartas a Mariana,
Mem Martins, Ed. Coolbooks, 2005



1. Indique o assunto do e-mail.

2. O destinatário é referido, no início de cada parágrafo, sempre através da mesma palavra. Indique-a, esclarecendo a sua importância na estrutura do texto.

3. Explicite os motivos subjacentes ao estado emocional do destinador deste e-mail.

4. Transcreva uma expressão que remeta para um espaço característico de um tempo pas¬sado, a época em que viveu Mariana Alcoforado.

5. Identifique dois aspetos que sugiram o tempo do presente da escrita.

6. Explique os obstáculos que levaram a que a comunicação não se efetuasse.

7. «Hoje, penitencio-me mil vezes, por não ter tido o engenho de decorá-lo imediatamente, de guardá-lo no espaço da memória onde, displicentemente, acumulo informação desne¬cessária, como o número de contribuinte ou o NIB.» (II. 47-49)
7.1. Explique, por palavras suas, o sentido do excerto transcrito.

8. Mariana escreveu cinco cartas a Chamilly.
8.1. Identifique as funções sintáticas dos elementos da frase.
8.2. Classifique o verbo como transitivo ou intransitivo.

II


Redija um texto, de cem a duzentas palavras, no qual evidencie a sua opinião sobre as vantagens e desvantagens da comunicação por telefone/telemóvel e internet em detrimento do tradicional discurso epistolar.