27.2.10

Viagens na Minha Terra 2


Às vezes, passo horas inteiras
Olhos fitos nestas braseiras,
Sonhando o tempo que lá vai;
E jornadeio em fantasia
Essas jornadas que eu fazia
Ao velho Douro, mais meu Pai.

Que pitoresca era a jornada!
Logo, ao subir da madrugada,
Prontos os dois para partir:
-Adeus! adeus! é curta a ausência,
Adeus! - rodava a diligência
Com campainhas a tinir!

E, dia e noite, aurora a aurora,
Por essa doida terra fora,
Cheia de Cor, de Luz, de Som,
Habituado à minha alcova
Em tudo eu via coisa nova,
Que bom era, meu Deus! que bom!

Moinhos ao vento! Eiras! Solares!
Antepassados! Rios! Luares!
Tudo isso eu guardo, aqui ficou:
Ó paisagem etérea e doce,
Depois do Ventre que me trouxe,
A ti devo eu tudo que sou!

No arame oscilante do Fio,
Amavam (era o mês do cio)
Lavandiscas e tentilhões...
Águas do rio vão passando
Muito mansinhas, mas, chegando
Ao Mar, transformam-se em leões!

Ao sol, fulgura o Oiro dos milhos!
Os lavradores mailos filhos
A terra estrumam, e depois
Os bois atrelam ao arado
E ouve-se além no descampado
Num ímpeto aos berros: - Eh! bois!

E, enquanto a velha mala-posta,
A custo vai subindo a encosta
Em mira ao lar dos meus Avós,
Os aldeões, de longe, alerta,
Olham pasmados, boca aberta...
A gente segue e deixa-os sós.

Que pena faz ver os que ficam!
Pobres, humildes, não implicam,
Tiram com respeito o chapéu:
Outros, passando ao nosso lado
Diziam: "Deus seja louvado!"
"Louvado seja!" dizia eu.

E, meiga, tombava a tardinha...
No chão, jogando a vermelhinha,
Outros vejo a discutir.
Carpiam, místicas, as fontes...
Água fria de Trás-os-Montes
Que faz sede só de se ouvir!

E, na subida de Novelas,
O rubro e gordo Cabanelas
Dava-me as guias para a mão:
Isso... queriam os cavalos!
Que eu não podia chicoteá-los...
Era uma dor de coração.
Depois cansados da viagem,
Repoisávamos na estalagem
(Que era em Casais, mesmo ao dobrar...)
Vinha a Sr.a Ana das Dores
"Que hão-de querer os meus Senhores?
Há pão e carne para assar..."

Oh, ingénuas mesas, honradas!
Toalhas brancas, marmeladas,
Vinho virgem no copo a rir...
O cuco da sala, cantando...
(Mas o Cabanelas entrando,
Vendo a hora: "É preciso partir".)

Caía a noite. Eu ia fora,
Vendo uma estrela que lá mora,
No Firmamento Português:
E ela traça-me o meu fado
"Serás Poeta e desgraçado!"
Assim se disse, assim se fez.

António Nobre, "Viagens na Minha Terra", Só


I

1. O sujeito poético "jornadeia" em fantasia ou evoca o percurso que fazia com o seu pai pelas terras da aldeia quando ainda era estudante.
1.1. Quem são as pessoas evocadas?
1.2. Refere como estão caracterizadas essas pessoas.
1.3. De todas as pessoas, há uma que ficou mais fortemente gravada na memória do Poeta. Identifica-a e descobre as razões.
1.4. Além das pessoas, há outros elementos que nunca foram esquecidos. Constrói um esquema semelhante ao apresentado para as pessoas e coloca neles esses elementos.

2. Os diversos elementos evocados formam uma paisagem que é subtilmente comparada ao Ventre da mãe do Poeta.
2.1. Explica o sentido dessa comparação.

3. Há diversos sentimentos expressos no poema.
3.1. Identifica-os.
3.2. Transcreve as expressões que os realizam.

4. "Carpiam, místicas, as fontes... / Água fria de Trás-os-Montes / Que faz sede só de se ouvir!"
4.1. Identifica os recursos expressivos realizados nestes versos.
4.2. Explica a sua expressividade.
4.3. No momento nocturno da viagem, o sujeito poético descobriu uma revelação numa estrela.
4.4. Transcreve o verso onde se encontra.
4.5. Que conceito de poeta aí se exprime?
4.6. Conterá esse verso alguma nota autobiográfica? Justifica a resposta.

5. Enquanto os passageiros dormem, o sujeito poético vigia ou vai alerta.
5.1. Indica a razão desta situação.
5.2. Explica o sentido da ironia que reveste a sua fantasia.

6. Garrett e Júlio Dinis são referidos no texto, Porquê?

7. Repara na rima, na cadência, na métrica e nas sonoridades.
7.1. Explica o grande encanto que estes elementos da substância fónica provocam no leitor.
7.2. Não te parece poesia para ser dita? Justifica a resposta.

8. Aponta uma justificação para a variedade de registos de língua.

9. Explica a importância da última estrofe.


II

Pressentem-se no poema influências de Cesário Verde. Num texto bem estruturado, de duzentas a trezentas palavras, confirma esta afirmação com elementos textuais.