4.2.10

Vénus I

À flor da vaga, o seu cabelo verde,
Que o torvelinho enreda e desenreda...
O cheiro a carne que nos embebeda!
Em que desvios a razão se perde!

Pútrido o ventre, azul e aglutinoso,
Que a onda, crassa, num balanço alaga,
E reflui (um olfacto que embriaga)
Que em um sorvo, murmura de gozo.

O seu esboço, na marinha turva...
De pé flutua, levemente curva;
Ficam-lhe os pés atrás, como voando...

E as ondas lutam, como feras mugem,
A lia em que se desfazem disputando,
E arrastando-a na areia, co'a salsugem.

Camilo Pessanha


I

1. Vénus é neste poema um cadáver. Mesmo assim ainda mantém a carga da atracção sexual da Vénus viva.
1.1. Que verso traduz essa carga?

2. Vénus é um corpo flutuante nas águas do mar: "À flor da vaga".
2.1. O que poderá sugerir a agitação das águas do mar?

3. A imagem feminina traz, em primeiro lugar, a sua nota de cor verde.
3.1. Qual será o simbolismo desta cor, neste contexto?

4. Esta imagem é colocada no mar. Vénus e mar.
4.1. De que será símbolo esta Vénus?