3.2.10

Ponto Final


Ó cores virtuais que jazeis subterrâneas,
- Fulgurações azuis, vermelhos de hemoptise.
Represados clarões, cromáticas vesâneas -,
No limbo onde esperais a luz que vos baptize,

As pálpebras cerrai, ansiosas não veleis.
Abortos que pendeis as frondes cor de cidra.
Tão graves de cismar, nos bocais dos museus,
E escutando o correr da água na clepsidra.

Vagamente sorris, resignados e ateus.
Cessai de cogitar, o abismo não sondeis.
Gemebundo arrulhar dos sonhos não sonhados.

Que toda a noite errais, doces almas penando,
E as asas lacerais na aresta dos telhados,
E no vento expirais em um queixume brando,
Adormecei. Não suspireis. Não respireis.

Camilo Pessanha


I


1. O poema contém três objectos de interpelação:
- as cores virtuais = apelo à passividade (permanência na virtualidade);
-os abortos = apelo à incapacidade de existir/decomposição;
-o gemebundo arrulhar de sonhos = apelo à inutilidade/morte;

2. O sujeito poético não detém nenhum meio de se apoderar da realidade exterior: nem a visão, nem o pensamento, nem o sonho. Como consequência, a morte é a única realidade desejada; é o "Ponto Final".

3. Só aparece neste poema a palavra clepsidra, que está de acordo com o sentido já descodificado.

4. É evidente a ligação da temática deste poema com a do poema inicial: inadequação do sujeito poético com este mundo, fuga para um mundo ideal e desejo da morte, como libertação.