11.2.10

Poema dum Funcionário Cansado




A noite trocou-me os sonhos e as mãos
dispersou-me os amigos
tenho o coração confundido e a rua é estreita
estreita em cada passo
as casas engolem-nos
sumimo-nos
estou num quarto só num quarto só
com os sonhos trocados
com toda a vida às avessas a arder num quarto só

Sou um funcionário apagado
um funcionário triste
a minha alma não acompanha a minha mão
Débito e Crédito Débito e Crédito
a minha alma não dança com os números
tento escondê-la envergonhado
o chefe apanhou-me com o olho lírico na gaiola do quintal em frente
e debitou-me na minha conta de empregado
Sou um funcionário cansado dum dia exemplar
Por que não me sinto orgulhoso de ter cumprido o meu dever?
Por que me sinto irremediavelmente perdido no meu cansaço ?

Soletro velhas palavras generosas
Flor rapariga amigo menino
irmão beijo namorada
mãe estrela música
São as palavras cruzadas do meu sonho
palavras soterradas na prisão da minha vida
isto todas as noites do mundo numa só noite comprida
num quarto só.


António Ramos Rosa

I

1. O sujeito da enunciação apresenta-se, em primeiro lugar, como um ser confuso e solitário.
1.1. Indica os versos em que se revela tal situação.
1.1.1. Em que momento a experimenta mais fortemente? Porquê?
1.1.2. Há nela um carácter obsessivo. Onde se regista tal obsessão?
1.2. Como se justifica a passagem do sujeito da enunciação singular para o sujeito plural?
1.3. Que influência exerce o espaço sobre os indivíduos?
1.4. Qual a expressão que se repete quase como um refrão?

2. O sujeito da enunciação faz, na segunda estrofe, a sua autocaracterização, cheia de ironia.
2.1. Destaca as expressões que melhor o caracterizam.
2.2. Em que se baseia a ironia?
2.3. Os gestos mecânicos, rotineiros, não se casam com a actividade de "poeta".
2.3.1. Indica as razões dessa incompatibilidade.
2.3.2. Que efeitos produz no sujeito poético o seu trabalho de funcionário?
2.3.3. Porque é que são feitas duas interrogações?
2.4. O espaço e o tempo esmagam-no. Há, porém, ainda outro elemento que o subjuga.
2.4.1. Quem?
2.4.2. Que representa essa personagem?
2.4.3. Onde se vê mais claramente a ironia?

3. A terceira estrofe representa uma tentativa de evasão.
3.1. Transcreve as "palavras soletradas"
3.2. Analisa-as no seu significado denotativo e conotativo.
3.3. Repara na ordem por que foram colocadas. Será casual ou fundamentada? Justifica a resposta.
3.4. A tentativa de evasão não resulta.
3.4.1. Encontra a palavra que sintetiza as "palavras soletradas".
3.4.2. Como se justifica a frustração da tentativa de evasão?

4. Explica o sentido do verso: "isso todas as noites do mundo uma só noite comprida".

5. Na situação em que se encontra o poeta, o que não pode ele fazer?

6. Qual será o objectivo deste poema?


II

1. Elabora o comentário global deste texto, orientando-te pelos tópicos seguintes:
- tema/assunto;
- desenvolvimento do tema/assunto;
- caracterização do sujeito da enunciação;
- factores de alienação;
- expressividade da linguagem.

2. Resume o excerto transcrito constituído por duzentas e sessenta e nove palavras num texto de oitenta a noventa palavras.


A literatura pode superar o silêncio existindo, subsistindo. Não por inércia, não como artificialidade: mas como esforço, afirmação - qualitativamente.
O silêncio deve continuar a ser a orla da palavra, resguardando-a da banalidade, do já gasto, do ineficaz. A pura incomunicabilidade, a solidão feroz, deve ser abatida, superada, substituída. A arte deve ser apoteose da comunicação, do contacto humano. O extremo negativo do silêncio é a desumaniza-cão da arte, da literatura. Para focar de novo o homem, aquele que está na contínua tensão poténcta-abundância, indivíduo-sociedade, fraqueza-f orça é preciso reinventar de novo a linguagem no equilíbrio do entusiasmo (faculdade que hoje parece ter diminuído consideravelmente) e de reflexão, na dimensão de interioridade de que o homem é capaz. A massificação da literatura conduz à sua destruição: lugares-comuns em vez de expressão original, apelo à exterioridade em vez de convite à realização total, A literatura aspira, por si, à comunicação, é comunicação, mas há que aprender a lê-la, essa será uma das formas de vencer o silêncio: uma educação que inclua a leitura crítica, a leitura fecunda duma mensagem escrita para todos os homens - os textos literários. Para isso também é necessária a sua difusão nos meios de comunicação, nos círculos familiares, nos círculos de amizade.
Eis, portanto, que a problemática do silêncio, tanto no seu aparecimento como na sua superação, se apresenta a três níveis: do autor, do texto e do leitor. Os três elementos são três partes da mesma unidade, que é a literatura. Não há literatura sem autor, sem texto e sem leitor - tal como não há comunicação sem emissor, sem mensagem e sem receptor.

Maria Teresa Dias Furtado, Ramos Rosa ou Da superação do silêncio em poesia,
Colóquio Letras, n." 57, pág, 65