21.2.10

No silêncio da terra

No silêncio da terra. Onde ser é estar.
A sombra se inclina.
Habito
dentro de grande pedra de água e sol.
Respiro sem o saber, respiro a terra.
Um intelValo de suavidade ardente e longa.
Sem adormecer no sono verde.
Afundo-me, sereno,
flor ou folha sobre folha abrindo-se,
respirando-me, flectindo-me
no interior aberto.
Não sei se principio.
Um rosto se desfaz, um sabor ao fundo
da água ou da terra,
o fogo único consumido em ar.

Eis o lugar em que o centro se abre
ou a lisa permanência clara,
abandono igual ao puro ombro
em que nada se diz
e no silêncio se une a boca ao espaço.

Pedra harmoniosa
do abrigo simples,
lúcido, unido, silencioso umbigo
do ar.


o teu corpo
renasce
à flor da terra.
Tudo principia.

António Ramos Rosa, A Pedra Nua



I

1. Este poema expressa o (re)encontro do homem com as suas origens.
1.1. Faz o levantamento das etapas por que teve de passar o homem nesse projecto.
1.2. Indica o verso em que se afirma que a transição foi longa.
1.3. Refere também os elementos primordiais do universo presentes neste texto.
1.3.1. A terra é um desses elementos que aparece privilegiado. Porquê?

2. Qual o papel do silêncio?
2.1. Em que verso se refere mais vincadamente esse papel?

3. A osmose entre o homem e a terra é semelhante a um gesto de amor.
3.1. Justifica esta afirmação.

4. "Não sei se principio. Tudo principia."
4.1. Entre estes versos deu-se a aquisição do saber.
4.1.1. Qual o processo que levou a essa aquisição?
4.1.2. Que saber é esse?

5. Repara na construção do poema.
5.1. Faz um pequeno comentário sobre a extensão das estrofes e dos versos.


II

1. O homem moderno dissociou-se da natureza. Elabora um texto bem estruturado no qual faças apelo à união do homem e da natureza, podendo subordiná-lo ao título: "Terra e homem, um só espaço, uma só vida".


2. Resume o excerto transcrito constituído por 457 palavras num texto de 140 a 170 palavras.

O poeta não é um narciso ou, se o é, sê-lo-á segundo a versão de Octávio Paz, que vê nele aquele que se apaixona, não pela sua imagem, mas pelo outro de si próprio que ele desejaria ser. Se o poeta porventura se ama não é a sua imagem interior ou exterior que ele ama, na sua identidade individual definida (conhecida, reconhecida mas na cisão que paradoxalmente a constitui e a reforça com a sua impossibilidade de ser); o verdadeiro objecto da sua paixão é constituído pela alteridade imanente nessa identidade, ou seja, por outros termos, o outro de si mesmo, que é mais ele do que ele próprio. E é este outro o primeiro destinatário da sua poesia, embora seja difícil ou impossível determinar a sua precedência, uma vez que o primeiro impulso da criação poética é já a confluência de diversas leituras de poemas que o poeta leu e o marcaram de tal modo que não poderia ter escrito o que escreveu sem essa participação inicial de leitor de tantos poemas que o deslumbraram e lhe abriram novos caminhos para a sua criação poética. Basta dizer que se ele não fosse plural, não poderia ter escrito um único poema ou, se o escrevesse, talvez não fosse um poema por carência de (in)formação poética, e, evidentemente, não poderia ser original, porque não seria um poeta.
Se me é lícito referir-me a mim próprio direi que, como ensaísta, sou essencialmente um leitor de poesia e, como poeta, sou ainda um leitor de poesia, cujos poemas nascem de uma criação original e da confluência de poetas que nela participam, sem pretender estabelecer uma fronteira ilusória entre o que seria exclusivamente meu e dos poetas que confluem na minha produção poética, por diferente que a sua poesia seja da minha. Por outro lado, tenho escrito alguns livros que nasceram de um impulso criativo estimulado pela leitura de outros livros ou poetas amigos ou, inclusivamente, de poetas que eu nem conhecia e que constituíram assim uma correspondência intertextual com esses livros cuja leitura me interessou tanto que senti o desejo de escrever para esses livros. É o poeta que sou e, como tal, um leitor apaixonado que inicia ou continua um diálogo com o livro que recebe.
Em síntese, o que está na origem desta atitude, que é talvez rara ou única, é o facto de eu sentir que o poeta é, essencialmente, um ser com (os outros) e um ser para (os outros). Esta génese, que é uma abertura aos outros e ao mundo, é, por exemplo, na poesia de Paul Éluard inicialmente participante (e sobretudo amorosa), antes de ser especificamente poética, mas é sempre inerente à poesia na sua dinâmica criadora.

António Ramos Rosa, A Imobilidade Fulminante (1998)