3.2.10

Caminho III

Fez-nos bem, muito bem, esta demora:
Enrijou a coragem fatigada...
Eis os nossos bordões da caminhada,
Vai já rompendo o sol: vamos embora.

Este vinho, mais virgem do que a aurora,
Tão virgem não o temos na jornada...
Enchamos as cabaças: pela estrada,
Daqui inda este néctar avigora!...

Cada um por seu lado!... Eu vou sozinho,
Eu quero arrostar só todo o caminho,
Eu posso resistir à grande calma!...

Deixai-me chorar mais e beber mais,
Perseguir doidamente os meus ideais,
E ter fé e sonhar _ encher a alma.

Camilo Pessanha


I

1. Os três sonetos intitulados «Caminho» fazem parte dum conjunto: o primeiro marca a partida; o segundo, a interrogação sobre o sentido da jornada e da paragem para que a indecisão se resolva e surja um novo alento para caminhar, o terceiro aponta esse novo alento.
1.1. Qual é essa força que aparece para que seja possível o recomeço da caminhada?

2. A cisão verificada no segundo soneto é consumada no terceiro.
2.1. Qual dos dois "eus" reinicia a caminhada?
2.2. Que procura ele?
2.3. Que palavras mostram com mais rigor o sentido da sua caminhada?

3. A poesia visa criar um mundo ideal, de que o nosso é apenas representação imperfeita. Para tal, recorre a uma variedade de imagens e símbolos. O tema central de Clepsidra é a incessante luta para captar o inefável. Há que passar por diversas etapas para superar todas as contingências; a morte surge como a máxima superação. Os simbolistas procuravam caminhos para atingir o infinito.

4. Dentro deste sentido, Caminho III é o poema-eixo em torno do qual os outros dois se organizam, ou seja, existem para chegar à conclusão.