3.2.10

Caminho II


Encontraste-me um dia no caminho
Em procura de quê, nem eu o sei.
_ Bom dia, companheiro, te saudei,
Que a jornada é maior indo sozinho

É longe, é muito longe, há muito espinho!
Paraste a repousar, eu descansei...
Na venda em que poisaste, onde poisei,
Bebemos cada um do mesmo vinho.

É no monte escabroso, solitário.
Corta os pés como a rocha dum calvário,
E queima como a areia!... Foi no entanto

Que choramos a dor de cada um...
E o vinho em que choraste era comum:
Tivemos que beber do mesmo pranto.

Camilo Pessanha


I

1. Este texto é alegórico, como se pode verificar pela sequência de acções que abarcam o plano mimético e o plano metafórico.

2. O "eu" cindiu-se em dois "eus": o "eu" existencial e o "eu" potencial. O primeiro representa a vida e o segundo a além-vida. O companheiro é metáfora do "eu" existencial ou real e saúda o seu irmão "gémeo".

3. Há vontade de que se não dê a cisão para que possa haver uma partilha das dificuldades (dores) da jornada.
3.1. Que expressões mostram essa vontade?

4. O vinho é um símbolo. Qual será neste contexto o seu sentido?

5. A jornada é difícil. Que palavras foram usadas para evidenciar essa dificuldade?

6. Explica o sentido das duas comparações.

7. O último terceto é sempre muito importante num soneto.
7.1. Escreve uma pequena frase que traduza o seu sentido.