3.2.10

Caminho I

Tenho sonhos cruéis; n'alma doente
Sinto um vago receio prematuro.
Vou a medo na aresta do futuro,
Embebido em saudades do presente...

Saudades desta dor que em vão procuro
Do peito afugentar bem rudemente,
Devendo, ao desmaiar sobre o poente,
Cobrir-me o coração dum véu escuro!...

Porque a dor, esta falta d'harmonia,
Toda a luz desgrenhada que alumia
As almas doidamente, o céu d'agora,

Sem ela o coração é quase nada:
Um sol onde expirasse a madrugada,
Porque é só madrugada quando chora.


I

1. O poeta situa-se no campo onírico: "Tenho sonhos cruéis".
1.1. O substantivo sonhos liga-se a uma dimensão temporal. Qual?
1.2. Como é que vive o presente?
1.3. Como é que se podem ver aqui as três dimensões do tempo?
1.4. Essas dimensões temporais indiciam um dos temas mais recorrentes na poesia da Clepsidra. Qual?

2. "Vou a medo na aresta do Muro"
2.1. Qual a sugestão gerada pela imagem da aresta?

3. O Poeta pode viver pelo sonho no futuro; mas, na realidade, só pode viver no presente: "Embebido em saudades do presente".
3.1. Com que é identificado o presente? Atenta na rima que pode ser uma preciosa ajuda.

4. A dor é a palavra-chave deste e doutros sonetos.
4.1. Qual é o verso que indica a importância da dor?
4.2. E porque é a dor tão importante?

5. Há uma série de correspondências que merecem atenção.


5.1. A dor, "esta falta d'harmonia", desgasta os sentidos. Quais são as consequências desse facto para o sujeito poético?
5.2. Que versos ou expressões mostram que a dor desgasta os sentidos?

6. Se a dor é luz (vida) - "Sem ela o coração é quase nada" -, a ausência da dor é morte.
6.1. Que vocábulos insinuam a morte?

7. O Poeta deseja escapar à dor: "Um sol onde expirasse a madrugada" (luz/vida).
7.1. Como pode ele escapar à dor?
7.2. E porque deseja escapar à dor?

8. Pode considerar-se como tema deste soneto o desejo de fuga a este mundo e de entrada num outro mundo.
8.1. Do que já sabes sobre este Poeta e sobre o Simbolismo, que causas justificarão este desejo?