4.2.10

Ao longe os barcos de flores



(A Ovídio de Alpoim)

Só, incessante, um som de flauta chora,
Viúva, grácil, na escuridão tranquila,
– Perdida voz que de entre as mais se exila,
– Festões de som dissimulando a hora.

Na orgia, ao longe, que em clarões cintila
E os lábios, branca, do carmim desflora...
Só, incessante, um som de flauta chora,
Viúva, grácil, na escuridão tranquila.

E a orquestra? E os beijos? Tudo a noite, fora,
Cauta, detém. Só modulada trila
A flauta flébil... Quem há-de remi-la?
Quem sabe a dor que sem razão deplora?

Só, incessante, um som de flauta chora...

Camilo Pessanha


1. O poema é particularmente rico em sugestões musicais, aspecto muito valorizado pelos simbolistas.
Faz um levantamento, tão exaustivo quanto possível, dos elementos que, a nível fónico, o enriquecem (rimas, assonâncias, aliterações, ritmo, etc.).

2. Nota como se detecta uma visão fragmentária e subjectiva da realidade, como os temas são sugeridos e associados por relações simbólicas.

3. Nota ainda o gosto pelo vago, pelo indeterminado. Procura, elementos que te pareçam exprimirem ou intensificarem estes aspectos, atendendo aos planos fónico, morfo-sintáctico e semântico da linguagem.