19.2.10

26.4.71

26.4.71

Meu amor querido

Segundo dia em Ninda, não, terceiro. Ontem à noite, quando me preparava para me deitar, rebentou uma fuzilaria imensa de metralhadoras, no posto, a 20 m do meu quarto. Meio vestido, meio despido, saí a correr, dei a volta à casa, e atravessei o espaço que me separa dos abrigos. Os sentinelas viram vultos e abriram fogo. No resto da noite acordei várias vezes, sobressaltado. Espero que não continuem estes aborrecidos incidentes nocturnos que me impedem de descansar. Hoje recebeu-se a notícia que o destacamento de fuzos do Luvuei, a cerca de 80 km de Gago Coutinho, foi brindado por morteiros e bazucas. Como vês, música é coisa que não falta por estas bandas, e vamos dançando como podemos.
O meu trabalho aqui é imenso. A população enche-me a manhã, e tenho de deixar para a tarde a consulta aos militares, o que me rouba tempo para a história, que, por sua vez, lá vai mancando página a página. Talvez o essencial seja escrever, ganhar um hábito e um convívio com as palavras, como quem faz exercícios de piano. O livro do Butor que me mandaste é uma es-pécie de John dos Passos, escrito segundo a técnica simultaneísta, e deve ser uma das primeiras obras do tipo, ainda sem novidades de espécie alguma. O do Beckett tira frases inteiras do Molloy, e é bastante mais fraco. De qualquer forma, não penses que fizeste más compras. Tenho gostado muito de os ler e têm-me feito muito bem.
Espero que o tio Pedro tenha encontrado condições na casa e que possamos ir para lá, a solução mais barata parece-me de facto ser essa. O espírito mercantil da «tia Isa» enervou-me um bocado, sobretudo depois de a ouvir falar, ininterruptamente, da «minha querida Zézinha» e da «minha querida menina». Por um conto e setecentos não se pode dizer que seja um amor barato. A tia Gogó, que viu a casa, diz-me que lhe parece poder fazer-se dela uma coisa muito engraçada. Resolverás esse assunto em toda a liberdade e como melhor entenderes.
Não te preocupes com nada. Não vale a pena. Tenho aprendido nesta guerra, a não me maçar, e já é uma coisa boa que aqui ganhei.
As patilhas crescem-me ramalhudamente. Não sei qual é a tua opinião a esse respeito, mas se quiseres decepo-as. O que tenho notado são cabelos brancos em quantidade. Velho!
Há muito tempo que não falo na criança, mas tenho pensado muito nela. Só espero que se sinta bem connosco e seja feliz, e que goste tanto de ter nascido como eu, quando estou ao pé de ti e te toco.

Minha linda, milhões de beijos apaixonados do teu
António

Tu és a minha melhor qualidade.

António Lobo Antunes, D' Este Viver Aqui Neste Papel Descripto - Cartas da Guerra,
Lisboa, Publicações Dom Quixote, 2005



1. De acordo com o sentido do texto, assinale com X a resposta que considera correcta.

1.1. A saudação inicial denota que...
a) existe uma relação formal entre os interlocutores.
b) há uma proximidade aparente entre o locutor e o interlocutor.
c) esta é uma forma usual de nos dirigirmos a qualquer pessoa.
d) há uma grande relação de afectividade entre os interlocutores.

1.2. Aquando da situação de bombardeamento de metralhadoras, o autor desta carta...
a) foi ferido gravemente.
b) vestiu-se e refugiou-se nos abrigos.
c) refugiou-se apressadamente nos abrigos.
d) continuou a dormir serenamente.

1.3. O destacamento de fuzos do Luvuei...
a) preparou uma recepção a Lobo Antunes.
b) festejou o ataque a Ninda.
c) foi bombardeado.
d) organizou uma festa com muita música.

1.4. A expressão «o que me rouba tempo para a história, que, por sua vez, lá vai mancando página a página» significa que...
a) o livro é hilariante.
b) o locutor detesta Molloy.
c) a história avança lentamente.
d) o autor está a escrever uma história sobre uma pessoa que tem uma deficiência numa perna.

1.5. A tia Isa, pelas suas atitudes, revela-se...
a) muito amiga da tia Gogó.
b) uma mulher meiga e carinhosa.
c) uma verdadeira amiga dos sobrinhos.
d) uma mulher interesseira e calculista.

1.6. O autor sente-se feliz quando...
a) está em Ninda.
b) lê Beckett.
c) está próximo da sua esposa.
d) defende o seu exército.

1.7. Na expressão «as patilhas crescem-me ramalhudamente» está presente...
a) uma antítese.
b) uma comparação.
c) uma anástrofe.
d) uma metáfora.

1.8. A palavra «ramalhudamente»...
a) é uma forma derivada por sufixação.
b) é uma forma derivada por prefixação.
c) obedece à composição morfológica.
d) obedece à composição morfossintáctica.

1.9. A forma verbal «ganhei» encontra-se no...
a) presente do indicativo.
b) pretérito imperfeito do indicativo.
c) pretérito imperfeito do conjuntivo.
d) pretérito perfeito do indicativo.