27.1.10

Viagens na minha terra


Às vezes, passo horas inteiras
Olhos fitos nestas braseiras,
Sonhando o tempo que lá vai;
E jornadeio em fantasia
Essas jornadas que eu fazia
Ao velho Douro, mais meu Pai.

Que pitoresca era a jornada!
Logo, ao subir da madrugada,
Prontos os dois para partir:
-Adeus! adeus! é curta a ausência,
Adeus! - rodava a diligência
Com campainhas a tinir!

E, dia e noite, aurora a aurora,
Por essa doida terra fora,
Cheia de Cor, de Luz, de Som,
Habituado à minha alcova
Em tudo eu via coisa nova,
Que bom era, meu Deus! que bom!

Moinhos ao vento! Eiras! Solares!
Antepassados! Rios! Luares!
Tudo isso eu guardo, aqui ficou:
Ó paisagem etérea e doce,
Depois do Ventre que me trouxe,
A ti devo eu tudo que sou!

No arame oscilante do Fio,
Amavam (era o mês do cio)
Lavandiscas e tentilhões...
Águas do rio vão passando
Muito mansinhas, mas, chegando
Ao Mar, transformam-se em leões!

Ao sol, fulgura o Oiro dos milhos!
Os lavradores mailos filhos
A terra estrumam, e depois
Os bois atrelam ao arado
E ouve-se além no descampado
Num ímpeto aos berros: - Eh! bois!

E, enquanto a velha mala-posta,
A custo vai subindo a encosta
Em mira ao lar dos meus Avós,
Os aldeões, de longe, alerta,
Olham pasmados, boca aberta...
A gente segue e deixa-os sós.

Que pena faz ver os que ficam!
Pobres, humildes, não implicam,
Tiram com respeito o chapéu:
Outros, passando ao nosso lado
Diziam: "Deus seja louvado!"
"Louvado seja!" dizia eu.

E, meiga, tombava a tardinha...
No chão, jogando a vermelhinha,
Outros vejo a discutir.
Carpiam, místicas, as fontes...
Água fria de Trás-os-Montes
Que faz sede só de se ouvir!

E, na subida de Novelas,
O rubro e gordo Cabanelas
Dava-me as guias para a mão:
Isso... queriam os cavalos!
Que eu não podia chicoteá-los...
Era uma dor de coração.
Depois cansados da viagem,
Repoisávamos na estalagem
(Que era em Casais, mesmo ao dobrar...)
Vinha a Sr.a Ana das Dores
"Que hão-de querer os meus Senhores?
Há pão e carne para assar..."

Oh, ingénuas mesas, honradas!
Toalhas brancas, marmeladas,
Vinho virgem no copo a rir...
O cuco da sala, cantando...
(Mas o Cabanelas entrando,
Vendo a hora: "É preciso partir".)

Caía a noite. Eu ia fora,
Vendo uma estrela que lá mora,
No Firmamento Português:
E ela traça-me o meu fado
"Serás Poeta e desgraçado!"
Assim se disse, assim se fez.

António Nobre, "Viagens na Minha Terra" in



1. O poema tem um cunho marcadamente narrativo.
1.1. Justifique o uso dos diferentes demonstrativos nas expressões: "nestas braseiras"/"essas jornadas".
1.2. Delimite os principais momentos da acção desta narrativa.
1.3. Indique as palavras que constroem, no texto, o campo lexical de viagem.
1.4. Releve do texto as expressões que sugerem a passagem do tempo da acção.
1.5. Indique o papel que cada uma das personagens desempenha na acção.
1.6. Atente nos versos: "Por essa doida terra fora, / Cheia de Cor, de Luz, de Som" (3ª estrofe).
1.6.1. Releve os elementos do espaço percorrido que remetem para as sensações referidas.
1.6.2. Tendo em conta o verso "Habituado à minha alcova", interprete o uso das maiúsculas nas palavras "Cor", "Luz" e "Som".

2. Apesar dos elementos narrativos que contém, este é um texto lírico, em que predomina, portanto, a expressão de sentimentos do eu.
2.1. Transcreva as expressões da primeira estrofe que remetem para a atitude lírica do sujeito.
2.2. Indique os diferentes sentimentos implícitos nas exclamações.
2.3. "Tudo isso eu guardo, aqui ficou:". Classifique morfologicamente a palavra aqui e indique o seu referente.