23.1.10

Os cinco sentidos

São belas - bem o sei, essas estrelas,
Mil cores - divinais têm essas flores;
Mas eu não tenho, amor, olhos para elas:
Em toda a natureza
Não vejo outra beleza
Senão a ti - a ti!

Divina - ai!, sim, será a voz que afina
Saudosa - na ramagem densa, umbrosa,
Será; mas eu do rouxinol que trina
Não oiço a melodia,
Nem sinto outra harmonia
Senão a ti - a ti!

Respira – n'aura que entre as flores gira,
Celeste - incenso de perfume agreste.
Sei... não sinto: minha alma não aspira,
Não percebe, não toma
Senão o doce aroma
Que vem de ti - de ti!

Formosos - são os pomos saborosos,
É um mimo - de néctar o racimo:
E eu tenho fome e sede ...sequiosos,
Famintos meus desejos
Estão... mas é de beijos,
É só de ti - de ti!

Macia - deve a relva luzidia
Do leito - ser por certo em que me deito.
Mas quem, ao pé de ti, quem poderia
Sentir outras carícias,
Tocar noutras delícias
Senão em ti - em ti!

A ti! , ai, a ti só os meus sentidos
Todos num confundidos,
Sentem, ouvem, respiram;
Em ti, por ti deliram.
Em ti a minha sorte,
A minha vida em ti;
E quando venha a morte,
Será morrer por ti.

Almeida Garrett, Folhas Caídas



1. Atente no título do poema.
1.1. Relacione-o com cada uma das estrofes.
1.2. Faça um levantamento do campo lexical referente a cada um dos sentidos.
1.3. Não é arbitrária a ordem das estrofes. Justifique.
1 .4. De que forma a crescente erotização eu/tu é traduzida pelas variações do refrão (a ti .. ./de ti .../ em ti)?

2. O sujeito poético alterna o saber com o sentir.
2.1. Demonstre-o com expressões do texto.
2.2. Prevalece o saber ou o sentir?
2.3. Indique, exemplificando no texto, em que recurso estilístico se apoia a «confusão de sentidos».
2.4. Que tipo de amor se canta no poema?

3. A presença do rouxinol constitui um aviso que o eu poético ignora. Porquê?
(Não esqueça que o rouxinol tem, na literatura, uma simbologia própria.)

4. Contra o rigor clássico, o poema reflecte influências conscientes do lirismo medieval e da poesia popular. Verifique-o:
- no paralelismo de construção;
- no uso do refrão;
- na utilização da rima;
- na linguagem simples e directa.

5. Saliente, ainda, outros recursos característicos da poesia de Garrett.
(Veja, entre outros, o uso dos sinais de pontuação, a colocação dos adjectivos, o recurso à sinestesia, a rima interna e a métrica variada.)



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