31.1.10

A Lua de Joana




Lisboa, 18 de Setembro de 1992

Querida Marta,
Hoje foi o segundo dia de aulas e há gente que ainda está de férias.

A s’tora Margarida resolveu fazer um pequeno discurso de abertura do ano lectivo e, no fim, falou um pouco de ti. Toda a gente percebeu que ela estava comovida. Até lhe custou pronunciar o teu nome e, quando finalmente o disse, olhou para mim, talvez à procura de algum encorajamento (que eu não fui capaz de lhe dar). O que disse foi simples, mas muito tocante. Falou do papel da amizade e, a seguir, fez um apelo: «Por favor, quem estiver com problemas, seja de que ordem for: família, droga, namoros, etc., pode vir ter comigo e falar abertamente. Estou ao VOSSO dispor.» Depois do discurso, o João Pedro decidiu pedir a palavra para dizer que lamentava o que se tinha passado contigo, que tinha sido teu amigo desde o Ciclo Preparatório, mas que, por muito que isso pudesse chocar (e olhou para mim), não conseguia desculpar que uma rapariga inteligente, com uma família bestial, se começasse a dar com gente que ela sabia andar metida em drogas. Acrescentou que era inadmissível, com tanta informação que há sobre o assunto, que alguém da nossa idade ainda não conhecesse os riscos que se podem correr.
De facto, fiquei chocada. Não por achar que o João Pedro não tivesse razão, mas por-que ele conseguiu falar com uma calma, uma frieza que me assustou. No fim da aula, fui ter com ele e disse-lhe que nunca se devia afirmar «desta água não beberei». Ele não concordou. Respondeu-me que havia águas que ele, sem dúvida, nunca beberia... Será? No fundo, talvez eu pense da mesma maneira que o João Pedro e, se calhar, quis apenas, de algum modo, defender-te. Mas, na realidade, eu também ainda não consegui compreender o que se passou contigo, nem sequer perdoar-te, Marta, embora esteja a fazer um esforço nesse sentido. Um superesforço!

Um beijo da
Joana


Maria Teresa Maia Gonzalez, A Lua de Joana (adaptado)


1.Observa a estrutura do texto transcrito.
1.1. Identifica a tipologia textual apresentada.
1.2. Explicita a sua estrutura.
1.3. Explicita a fórmula de despedida, justificando-a.

2. Analisa o corpo da carta, recordando que, após a morte da Marta (em 28 de Julho), a turma voltou a encontrar-se no início de um novo ano lectivo. O excerto apresentado refere o segundo dia de aulas.
2.1 Localiza a acção no tempo, justificando a tua resposta com expressões do texto.
2.2 Indica o espaço onde decorre a acção.

3. «No primeiro dia de aulas, houve cena para saber quem havia de ficar sentado no teu lugar, ou melhor, entre mim e a Sara.»
3.1 Explica as razões que justificam ter havido «cena».
3.2 Indica de que modo foi resolvida a situação.

4. A Joana, ao longo desta carta, dá a conhecer opiniões sobre pessoas e sobre acontecimentos. Depois de reler atentamente o texto, indica:
a) a reacção de Joana ao saber quem era a Directora de Turma;
b) o aluno que seria mais indicado para exercer o cargo de Delegado de Turma;
c) as opiniões do João Pedro, da professora e da Joana sobre o que tinha acontecido com a Marta.

5. «Respondeu-me que havia águas que ele, sem dúvida, nunca beberia... Será?». Tendo em atenção o contexto em que surgem estas frases, indica o que elas nos revelam acerca:
• das intenções do João Pedro;
• da opinião da Joana.

6. Considera a frase: No fim da aula, fui ter com ele e disse-lhe que nunca se devia afirmar «desta água não beberei».
6.1. Insere os vocábulos destacados na classe e subclasse a que pertencem.
6.2. Transcreve as formas verbais presentes na transcrição e regista o tempo, o modo, a pessoa e o número em que se encontram.
6.3. Reescreve a frase, colocando os verbos no futuro do indicativo.

7. Escreve um texto, correspondente a uma página de um diário, em que narres um acontecimento marcante de um dia de aulas e reflictas sobre o mesmo.