8.1.10

Ignoto Deo

D.D.D.

Creio em ti, Deus: a fé viva
De minha alma a ti se eleva.
És - o que és não sei. Deriva
Meu ser do teu: luz... e treva,
Em que - indistintas! - se envolve
Este espírito agitado,
De ti vem, a ti devolve.
O Nada, a que foi roubado
Pelo sopro criador
Tudo o mais, o há-de tragar.
Só vive de eterno ardor
O que está sempre a aspirar
Ao infinito donde veio.
Beleza és tu, luz és tu,
Verdade és tu só. Não creio
Senão em ti; o olho nu.
Do homem não vê na terra
Mais que a dúvida, a incerteza,
A forma que engana e erra.
Essência!, a real beleza,
O puro amor - o prazer
Que não fatiga e não gasta...
Só por ti os pode ver
O que inspirado se afasta,
Ignoto Deus, das ronceiras,
Vulgares turbas: despidos
Das coisas vãs e grosseiras
Sua alma, razão, sentidos,
A ti se dão, em ti vida,
E por ti vida têm. Eu, consagrado
A teu altar, me prosto e a combatida
Existência aqui ponho, aqui votado
Fica este livro – confissão sincera
Da alma que a ti voou e em ti só 'spera.

Almeida Garrett, Folhas Caídas





1. (D.D.D.): (Dat, donat, dedicat; dá, oferece, dedica).
1.1. A quem é dedicada a obra?
1.2. Explique o sentido de Ignoto Deo (cf. «Advertência»).

2. Atente no sujeito e no objecto da enunciação.
2.1. Identifique-os.
2.2. O sujeito poético experimenta alguma dificuldade em definir o destinatário. Que versos
traduzem essa dificuldade?
2.3. Caracterize, com a ajuda do esquema, a relação eu/tu.

3. A mensagem poética constrói-se à volta do contraste terra/céu.
3.1. Faça um levantamento dos termos e expressões que nos reenviam para esse confronto.
3.2. Relacione os elementos dessa oposição com o sujeito e o objecto da enunciação.

4. Para que tipo de amor nos remete o poema?
Justifique, atentando na oposição forma/essência.

5. Comente, em termos de originalidade e de influências recebidas:
- a escolha da métrica;
- o uso da pontuação.