26.1.10





Georges! anda ver meu país de Marinheiros,
O meu país das Naus, de esquadras e de frotas!
Oh, as lanchas dos poveiros
A saírem a barra, entre ondas e gaivotas!
Que estranho é!
Fincam o remo na água, até que o remo torça,
À espera da maré,
Que não tarda aí, avista-se lá fora!
E quando a onda vem, fincando-a a toda a força,
Clamam todos à uma «Agôra! agôra! agôra!»
E, a pouco e pouco, as lanchas vão saindo
(Às vezes, sabe Deus, para não mais entrar...)
Que vista admirável! Que lindo! que lindo!
Içam a vela, quando já têm mar.
Dá-lhes o Vento e todas, à porfia,
Lá vão soberbas, sob um céu sem manchas,
Rosário de velas, que o vento desfia,
A rezar, a rezar a Ladainha das Lanchas:

Senhora Nagonia!

Olha acolá!
Que linda vai com seu erro de ortografia...
Quem me dera ir lá!

Senhora Daguarda!

(Ao leme vai o Mestre Zé da Leonor)
Parece uma gaivota: aponta-lhe a espingarda
O caçador!

Senhora d'ajuda!
Ora pro nobis!
Caluda!
Semos probes!
Senhor dos ramos
Istrela do mar!
Cá bamos !
Parecem Nossa Senhora, a andar!

Senhora da Luz!

Parece o Farol!...

Maim de Jesus!

É tal qual ela, se lhe dá o sol!

Senhor dos Passos!
Sinhora da Ora!

Águias a voar, pelo mar dentro dos espaços
Parecem ermidas caiadas por fora...
Senhor dos Navegantes!
Senhor de Matusinhos!

Os mestres ainda são os mesmos dantes:
Lá vai o Bernardo da Silva do Mar,
A mai-Ios quatro filhinhos,
Vascos da Gama que andam a ensaiar...

Senhora dos aflitos!
Martir São Sebastião!
Ouvi os nossos gritos!
Deus nos leve pela mão!
Bamos em Paz!

Ó lanchas, Deus vos leve pela mão!
Ide em paz!

Ainda lá o vejo o Zé da Clara, os Remelgados,
O Jeques, o Pardal, na Nam te perdes,
E das vagas, aos ritmos cadenciados,
As lanchas vão traçando, à flor das águas verdes,
«As armas e os barões assinalados...»

Lá sai a derradeira!
Ainda agarra as que vão na dianteira...
Como ela corre! com que força o Vento a impele!

Bamos com Deus!

Lanchas, ide com Deus! ide e voltai com Ele
Por esse mar de Cristo...
Adeus! adeus! adeus!

António Nobre, , 1892



1. Longe de Portugal, em Paris, o poeta relembra, para um amigo, cenas da pesca na Póvoa do Varzim.
1.1 Que valor assume o vocativo com que começa o poema?
1.2 Porque chama o poeta a Portugal «meu país das Naus, de esquadras e de frotas»? (v.2)
1.3 Que sentimentos deixa transparecer o pronome possessivo «meu» no v.2?
1.4 Que ligação tem esse país de frotas com a azáfama da pesca na Póvoa do Varzim?

2. Que outros sentimentos, para além do que referiu na questão 1.3, experimenta o poeta face ao espectáculo poveiro?

3. Explique o significado do verso 17.

4. Depois de uma introdução, o poeta faz desfilar perante a imaginação de Georges (e dos seus leitores) uma série de barcos, cujos nomes evoca.
4.1. Comente o tipo de letra que os distingue do resto do poema.
4.2. Verifique e explique a alternância entre dois tipos de letra em todo o resto do poema.
4.3. Comente também a diferença de ritmo existente entre a 1ª estrofe do poema e as restantes.

5. Indique todas as comparações e metáforas que o poeta encontra para os elementos que evoca.

6. O autor retoma, já no fim do poema, a evocação dos grandes feitos marítimos dos Portugueses.
6.1 «As armas e os barões assinalados» é o primeiro verso de que epopeia?
6.2 Porque terá o poeta chamado ao seu poema tal evocação?
6.3 Que identidade existe entre «os barões assinalados» e os pescadores poveiros?

8. Comente o sentimento que, no final do poema, leva António Nobre a repetir «Adeus! Adeus! Adeus!»