8.12.09

Piloto


Fazia gosto vê-lo atirar-se ao tanque a agarrar o pau, que o João lhe lançava o mais longe que podia; pegava nele, metia-o na boca e trazia-o à margem, com grande alegria do pequerrucho e de sua irmã Joaninha.
Esta brincadeira recomeçava vinte vezes sem cansar nunca a paciência do Piloto. Depois eram corri-das, festas, gargalhadas, saltos, até que o assobio do criado da quinta chamava o fiel animal às suas obrigações; partia então como um raio, para escoltar as vacas que levavam aos pastos, e impedi-las de entrar no lameiro do vizinho.
Quando o hortelão ia vender os legumes ao mercado, era o Piloto o guarda da carroça; e muito atrevido seria quem saltasse à noite a parede da quinta.
Uma vez deu prova de uma extraordinária sagacidade: um jornaleiro, que se empregava muitas vezes em levar sacos de trigo da quinta para casa, tentou de noite roubar um saco.
O Piloto, que o conhecia, não fez a menor demonstração de hostilidade enquanto o homem seguiu o caminho da quinta, mas, desde que se afastou tomando por outro, o guarda vigilante, agarrou-o pela blusa, sem o largar.
Era como se dissesse: Aonde vais tu com o trigo do meu dono?
O ladrão quis pôr outra vez o saco donde o tinha roubado; mas o Piloto não deixou, e teve-o em guarda, sem o morder nem ferir, até de manhã; o quinteiro foi dar com ele nesta difícil posição, repreendeu-o vivamente, e despediu-o sem divulgar o caso, para o não desonrar.
O homem, porém, ficou com ódio ao cão, e muito tempo depois, aproveitando a ausência do quinteiro e dos filhos, chamou o Piloto, que correu para ele sem desconfiança; atou-lhe uma corda ao pescoço e arrastou-o à margem do ribeiro.
Atou à outra ponta da corda um grande calhau, e, levantando o animal, arrojou-o à água; mas arrasta-do ele próprio com o peso e com o esforço, caiu também.
Como não sabia nadar, teria sido despedaçado pela roda do moinho, se o corajoso Piloto, obedecendo ao seu instinto de salvador, e desembaraçando-se da pedra mal atada, não mergulhasse duas vezes, trazendo para terra o seu mortal inimigo.
Este, que já estava quase desmaiado, compreendeu, quando voltou a si, que o cão, que ele tinha querido afogar, lhe salvara a vida.
Envergonhou-se do acto miserável: e desde esse dia, violentando-se, combateu as suas más inclinações.
O exemplo do cão corrigiu o homem.


I

1. Qual era a brincadeira preferida do Piloto?
2. Que outras ocupações tinha Piloto? Justifica com expressões textuais.
3. Qual a peripécia que no texto mostra a esperteza deste cão?
3.1. Qual é a expressão do texto que se refere a esse facto?
4. De que forma tentou o homem vingar-se do cão? Conseguiu? Porquê?
5. Explica de que forma este conto ilustra a máxima popular de que o cão é o melhor amigo do homem!


II

A aproximação das férias coloca sempre muitos animais de estimação no abandono.
Elabora um comentário sucinto a este deplorável acto praticado por tantos portugueses.