8.12.09

Não és tu

Era assim, tinha esse olhar,
A mesma graça, o mesmo ar,
Corava da mesma cor,
Aquela visão que eu vi
Quando eu sonhava de amor,
Quando em sonhos me perdi.

Toda assim; o porte altivo,
O semblante pensativo,
E uma suave tristeza
Que por toda ela descia
Como um véu que lhe envolvia,
Que lhe adoçava a beleza.

Era assim; o seu falar,
Ingénuo e quase vulgar,
Tinha o poder da razão
Que penetra, não seduz;
Não era fogo, era luz
Que mandava ao coração.

Nos olhos tinha esse lume,
No seio o mesmo perfume ,
Um cheiro a rosas celestes,
Rosas brancas, puras, finas,
Viçosas como boninas,
Singelas sem ser agrestes.

Mas não és tu... ai!, não és:
Toda a ilusão se desfez.
Não és aquela que eu vi,
Não és a mesma visão,
Que essa tinha coração,
Tinha, que eu bem lho senti.

Almeida Garrett, Folhas Caídas



1. O poema organiza-se na base da oposição entre passado e presente.
1.1. Faz a caracterização da mulher vista no passado e vista no presente.
12. Encontra uma palavra para caracterizar cada visão.
1.3. Delimita os momentos em que o texto se estrutura, justificando a divisão.
1.4. Atenta nos verbos principais. Explica o valor do imperfeito, do pretérito perfeito e do presente.

2. Há uma diferença entre a imagem do tu no passado e no presente.
2.1. Como se justifica essa diferença?
2.2. Comprova que o tipo de conhecimento utilizado pelo eu para conhecer o tu é
importante para detectar as diferenças.

3. Como nos poemas já analisados, a mulher aparece sempre idealizada.
3.1. Encontra no texto palavras ou expressões que comprovem essa idealização.
3.2. Que figura de estilo suporta a idealização da mulher?

4. Há no poema várias figuras de estilo que geram a expressividade da linguagem.
4.1. Descobre os segmentos de discurso que realizam a anáfora, a antítese, a comparação e
a sinestesia.
4.2. Explica o sentido e a expressividade dessas figuras de estilo.

5. A oposição fogo/luz é recorrente na poesia de Garrett.
5.1. Para que tipos de amor apontam esses dois vocábulos?
5.2. Qual é o amor considerado mais perfeito? Porquê?

6. A parateatralidade ou a tendência para a oralidade é urna das características do discurso de Garrett.
6.1. Indica os elementos que realizam a parateatralidade, neste texto.

7. Caracteriza, finalmente, a mulher na base da oposição “ter coração” / “não ter coração”.


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