1.12.09

A minha vida é um barco abandonado



A minha vida é um barco abandonado
Infiel, no ermo porto, ao seu destino.
Por que não ergue ferro e segue o atino
De navegar, casado com o seu fado?

Ah! falta quem o lance ao mar, e alado
Torne seu vulto em velas; peregrino
Frescor de afastamento, no divino
Amplexo da manhã, puro e salgado.

Morto corpo da acção sem vontade
Que o viva, vulto estéril de viver,
Boiando à tona inútil da saudade.

Os limos esverdeiam tua quilha,
O vento embala-te sem te mover,
E é para além do mar a ansiada Ilha.


Fernando Pessoa, Antologia poética,
sel. e apresentação de Isabel Pascoal,
Ed. Bibl. Ulisseia


I

1. Identifica os recursos expressivos presentes nos dois primeiros versos e explicita o seu contributo para a construção de sentidos no poema.
1.1. Comenta o valor expressivo da interrogação.
1.2. Identifica aquilo de que o sujeito poético parece ter abdicado, referindo a lacuna que detecta em si próprio.

2. Comenta o valor expressivo da caracterização do “corpo” presente na 3.ª estrofe.
2.1. Explicita o contributo da forma verbal “Boiando” para o sentido da estrofe.

3. Identifica a figura de estilo que, na 4.ª estrofe, veicula a estagnação interior do sujeito.

4. Demonstra que este poema exemplifica o efeito paralisante da auto-análise característica da poesia de Fernando Pessoa ortónimo.

5. Analisa os aspectos formais do poema (composição estrófica, métrica, rima).


II

Lê atentamente o texto seguinte.


Surpreendidos pelo fenómeno literário insólito de uma constelação de poetas, reivindicando pela boca do seu criador ou deles mesmos um direito à existência (...), os primeiros intérpretes tentaram tudo o que estava em seu poder para reduzir a estranheza desse desdobramento artístico. Essa redução tomou três direcções principais, mas finalmente complementares: a primeira consistiu em encontrar na vida do Poeta, na sua psicologia real ou suposta, as motivações dessa diversificação em poetas, característica da sua criação literária; a segunda, em mostrar, através da análise de cada um dos poetas que Pessoa pretendeu ser, que a apregoada autonomia não resiste a um exame, nem dos temas, nem das particularidades estilísticas; a terceira, finalmente, reenvia essa estranheza, diagnosticada como simples difracção de um comportamento histórico absurdo característico de uma classe sem futuro inteligível para essa mesma história de que é reflexo. Assim se utilizaram as três perspectivas que, segundo o autor da “Nova poesia portuguesa no seu aspecto psychologico”, se impõem na análise de uma obra: a psicológica, a literária, a sociológica, respectivamente representadas por João Gaspar Simões, Jacinto do Prado Coelho e Mário Sacramento. Por maiores que sejam as diferenças entre elas (...) uma coisa as unifica: mau grado o contributo histórico que cada uma representa e as inúmeras questões que debateram ou resolveram em relação à génese ou interpretação dos poemas, mau grado mesmo a subjectiva vontade de tentar erguer um monumento ao Poeta (salvo Mário Sacramento), tido como “genial”, o perfil último que da sua poesia (e mesmo do homem) se destaca é, paradoxalmente, negativo. De uma maneira, por assim dizer, fatal, passou-se insensivelmente do campo da análise da heteronímia ao do seu desmascaramento, já com forte coloração pejorativa e, em seguida, à desmistificação não só do jogo heteronímico como do processo poético que ele estrutura, finalmente submetido a uma espécie de desmistificação.
Tudo se passa como se os críticos, inconscientemente, tivessem querido punir Pessoa de ter levado consigo a chave de um labirinto onde eles se perdem.


Eduardo Lourenço, Pessoa Revisitado, Gradiva (texto com supressões)
1 In A Águia, 2.a série, 1912, p. 86.