18.12.09

A M. C.


Pôs-te Deus sobre a fronte a mão piedosa:
O que fada o poeta e o soldado
Volveu a ti o olhar, de amor velado,
E disse-te: «vai, filha, sê formosa!»

E tu, descendo na onda harmoniosa,
Pousaste neste solo angustiado,
Estrela envolta num clarão sagrado,
Do teu límpido olhar na luz radiosa...

Mas eu... posso eu acaso merecer-te?
Deu-te o Senhor, mulher! o que é vedado,
Anjo! deu-te o Senhor um mundo à parte.

E a mim, a quem deu olhos para ver-te,
Sem poder mais... a mim o que me há dado?
Voz que te cante e uma alma para amar-te!

Antero de Quental



Antero canta os seus amores, espiritualizados como os de Petrarca. Neles não há sensualidade à vista, como nas poesias de Anastácio da Cunha ou Garrett; há de preferência uma adoração abnegada do Eterno Feminino.

António Barreiros, História da Literatura Portuguesa



Comente o poema, tendo em conta:
- a angelização da amada;
- a aproximação/distanciamento eu/tu;
- a espiritualização dos dados sensoriais(no 2.° terceto);
- o tipo de amor subjacente à relação eu/tu;
- os aspectos formais mais relevantes.