6.12.09

Apontamento



A minha alma partiu-se como um vaso vazio.
Caiu pela escada excessivamente abaixo.
Caiu das mãos da criada descuidada.
Caiu, fez-se em mais pedaços do que havia loiça no vaso.

Asneira? Impossível? Sei lá!
Tenho mais sensações do que tinha quando me sentia eu.
Sou um espalhamento de cacos sobre um capacho por sacudir.

Fiz barulho na queda como um vaso que se partia.
Os deuses que há debruçam-se do parapeito da escada.
E fitam os cacos que a criada deles fez de mim.

Não se zangam com ela.
São tolerantes com ela.
O que era um vaso vazio?

Olham os cacos absurdamente conscientes,
Mas conscientes de si-mesmos, não conscientes deles.

Olham e sorriem.
Sorriem tolerantes à criada involuntária.

Alastra a grande escadaria atapetada de estrelas.
Um caco brilha, virado do exterior lustroso, entre os astros.
A minha obra? A minha alma principal? A minha vida?
Um caco.


Álvaro de Campos, 1929


I

1. Encontra uma razão plausível para a comparação presente no verso inicial.
2. O poeta sente-se mais completo agora que está em cacos. Posiciona-te criticamente em relação à afirmação anterior.
3. Procura explicar a benevolência dos deuses face ao descuido da criada.
4. Demonstra que os cacos são um símbolo da fragmentação que o sujeito poético sente.
5. Como explicas a atenção dada pelos deuses ao caco que brilha “do exterior lustroso, entre os astros.”
6. Analisa a linguagem e o estilo do poema.
7. Comenta o título do poema.


II

“Desculpe-me o absurdo da frase: aparecera em mim o meu mestre. Foi essa a sensação imediata que tive.”
Fernando Pessoa


A frase de Pessoa refere-se a Alberto Caeiro. Elabora uma dissertação sobre a importância deste heterónimo, assim definido como “mestre”, no conjunto da obra heterónima do poeta. Apresenta o plano da dissertação.
[200 a 250 a palavras]