18.11.09

Um jovem caranguejo...



Um jovem caranguejo pensou: "Porque é que na minha família todos andam para trás? Quero aprender a andar para a frente, e que a cauda me caia se não o conseguir."
Começou a exercitar-se às escondidas, entre os seixos do ribeiro natal, e nos primeiros dias a tarefa causou-lhe uma enorme estafa. Chocava contra tudo, machucava a carapaça e atropelava as pernas uma na outra. Mas, a pouco e pouco, as coisas começaram a correr melhor, pois tudo se pode aprender, quando se quer.
Quando se sentia bem seguro de si, apresentou-se à família e disse:
- Vejam isto.
E deu uma magnífica corridinha em frente.
- Meu filho - desatou a chorar a mãe -, deram-te a volta ao miolo? Reconsidera, anda como o teu pai e a tua mãe te ensinaram, anda como os teus irmãos, que te querem tanto.
Os seus irmãos, porém, não faziam outra coisa senão troçar.
O pai, depois de ter estado a observá-lo severamente por um bocado, disse: - Basta. Se queres continuar connosco, anda como os outros caranguejos. Se queres fazer as coisas à tua maneira, o ribeiro é grande: vai-te e nunca mais voltes.
O bravo caranguejinho estimava os seus, mas estava demasiado seguro da sua justiça para ter dúvidas: abraçou a mãe, despediu-se do pai e dos irmãos e partiu ao encontro do mundo.
A sua passagem logo despertou a surpresa de um grupo de rãs que, como boas comadres, se haviam reunido para dar dois dedos de conversa em volta de um folha de um nenúfar branco.
- O mundo anda às avessas - disse uma rã - olhem-me para aquele caranguejo e digam lá se não tenho razão.
- Já não há respeito - disse uma outra rã.
- Apre! - disse uma terceira.
Mas o caranguejo seguiu em frente, é mesmo caso para dizê-lo, no seu caminho. A certa altura, ouviu chamar por ele: era um velho caranguejo solitário, de expressão melancólica, que se encontrava encostado a um seixo.
- Bom dia - disse o jovem caranguejo.
O velho observou-o prolongadamente, depois disse:
- Onde pensas tu que vais chegar com isso? Também eu, quando era jovem, pensava ensinar os caranguejos a andar para a frente. E eis o que recebi em troca: vivo completamente só, as pessoas preferiram cortar a língua a dirigir-me a palavra. Presta atenção ao que te digo, enquanto é tempo: resigna-te a fazer como os outros e um dia agradecer-me-ás o conselho.
O jovem caranguejo não sabia o que responder e ficou calado. Mas dentro de si pensava: "Eu tenho razão."
E, despedindo-se do velho com gentileza, retomou orgulhosamente o seu caminho.
Irá longe? Fará fortuna? Endireitará todas as coisas tortas deste mundo? Não o saberemos, porque ele ainda não parou de caminhar com a coragem e firmeza do primeiro dia. Apenas lhe podemos desejar de todo o coração: - Boa viagem!

RODARI, Gianni, Histórias ao telefone, Ed. Teorema


I

1. Identifica as personagens do texto.
1.1. Destaca a personagem principal.

2. Centra-te no protagonista e caracteriza-o psicologicamente.

3. Perante a actuação do protagonista, podemos dizer que algumas personagens se opõem a ela - os pais, as rãs e o "velho caranguejo solitário".
3.1. Indica os motivos dessa oposição.
3.2. Como vai reagir o protagonista a essa oposição?
4. Ao longo do texto, é possível encontrarmos momentos em que o narrador exprime uma

certa simpatia pela personagem principal. Transcreve duas passagens textuais que comprovam
esta afirmação.

5. O que representará a personagem "velho caranguejo solitário" nesta história? Justifica a
tua resposta.

6. Atribui um título sugestivo ao texto.


II

1. Classifica morfologicamente as palavras presentes nas seguintes frases :
a) "O bravo caranguejinho estimava os seus (...)."
b) "A sua passagem logo despertou a surpresa de um grupo de rãs (...)."

2. Indica o tempo e o modo das seguintes formas verbais:
a) "começou";
b) "anda" ;
c) "sabia" .


III

Escolhe uma das seguintes opções e redige um pequeno texto com as tuas ideias:

A) É fácil ser-se "diferente"? Podes contar um episódio, uma história que conheças, cujo protagonista se tenha destacado pela sua luta pela diferença. Ou podes simplesmente exprimir a tua opinião sobre o tema "afirmação da diferença".

B) Dá sequência e um outro desenlace, a teu gosto, à história do caranguejo. Como terá corrido a viagem do caranguejo? Terá ele tido sucesso, terá atingido o(s) seu(s) objectivo ( s)?