8.11.09

Onzeneiro

(...)

Vai-se à barca do Anjo e diz:
Hou da barca! Houlá! Hou!
Haveis logo de partir?
ANJO E onde queres tu ir?
ONZ. Eu pera o Paraíso vou.
ANJO Pois cant’eu mui fora estou
de te levar para lá.
Essa barca que lá está
vai pera quem te enganou.
ONZ. Porquê?
ANJO Porque esse bolsão
tomará todo o navio.
ONZ. Juro a Deus que vai vazio!
ANJO Não já no teu coração.
ONZ. Lá me fica de ródão
minha fazenda e alhea.
ANJO Ó onzena, como és fea
e filha de maldição!

Torna o Onzeneiro à barca do Inferno e diz:
ONZ. Houlá! Hou demo barqueiro!
Sabês vós no que me fundo?
Quero tornar lá ao mundo
e trarei o meu dinheiro.
Aqueloutro marinheiro,
por que me vê vir sem nada,
dá-me tanta borregada
como arrais lá do Barreiro.
DIA. Entra, entra! Remarás!
Nom percamos mais maré!

(…)
Entrando o Onzeneiro no batel, que achou o o Fidalgo embarcado, diz, tirando o barrete:
ONZ Santa Joana de Valdês!
Cá é vossa senhoria?
Fid. Dá ò demo a cortesia!
DIA. Ouvis? Falai vós cortês!
Vós fidalgo, cuidareis
que estais na vossa pousada?
Dar-vos-ei tanta pancada
Com um remo, que renegueis!

Auto da Barca do Inferno, Gil Vicente



1. O Onzeneiro, tal como os outros réus, é alvo de acusações, das quais tenta desculpar-se.
1.1. Refere, por palavras tuas, os argumentos de acusação.

2. Parece-te que o Onzeneiro compreendeu as palavras do Anjo? Justifica com base no texto.

3. Atenta no último diálogo.
3.1. Como explicas as reacções do Onzeneiro e do Fidalgo relativamente um ao outro?
3.2. O Diabo acusa mais uma vez o Fidalgo.
3.2.1. Que aspecto é insinuado?

4. Que pretendeu Gil Vicente ao colocar esta personagem em cena?