8.11.09

O Torneio


Aquilo durava há duas horas. O ruído seco dos tiros ia embater contra a ribanceira da estrada, repercutindo com surdos fragores no cavername das pedreiras. O vento dispersava o cheiro da pólvora, e trazia também, dispersos, os aromas das matas, todas cheias de giesta branca e de baba-de-cuco. Era uma tarde de vento. As bancadas estavam cobertas duma areia muito alva, moída; os espectadores em vão sacudiam os cabelos ásperos de poeira, e se enrolavam nas abas dos seus agasalhos. Permaneciam como mercadores duma caravana, dobrados sobre si, aquecendo-se com o próprio bafo, desorientados do redemoinho da tormenta. O torneio, porém, prosseguia. Viam-se os atiradores, em grupo, junto à cancela pintada de verde; com os seus casacos de malha e os seus fechos de cremalheira, as espingardas incrustadas de prata, faziam gala dum certo estoicismo, um certo desconforto desportivo, conservando-se no lugar desamparado.
O campo, situado em terreno baixo, ao nível do rio, era circundado pelas vinhas; o vento fazia vibrar os arames onde se abraçavam as vides. Havia um sol claro e moribundo iluminando ainda os cimos, mas essa mesma luz comunicava uma impressão de inquietação, de tristeza e de frio, revelando assim os ermos, os caminhos talhados na terra maninha, os olivais crescidos nos socalcos gastos pela erosão. Entretanto, na prancha, concorrentes disputavam entre si os troféus, abatendo os pombos que partiam das gaiolas com um brusco ruflar de asas. Da tribuna de honra, coberta de zinco, as mulheres aplaudiam. Eram damizelas de vozes mimosas, muito empenhadas em sobressair da multidão, com as suas mãos lânguidas, o ar suficiente, levemente absorto, de quem encontra no tédio uma atitude. Da sua bancada, José, um pequeno visionário de sobretudo cor de rato ou, mais precisamente, cor de musaranho das águas, parecia absurdamente entretido com o torneio. "Lá vai" – dizia para si, vendo o pombo pintalgado de branco e cinza, que hesitava na borda da sua gaiola, antes de se alvoroçar e romper voo –, "lá vai, na direcção da nuvem e do vento, com intenção fervorosa mas inconsciente, como o próprio espírito de justiça dos homens..."
O pombo caiu, morto, deixando no ar um rasto de penas que foram tropeçando e como que palpitando sobre a lomba gris da vinhas. A multidão aplaudiu.
"Lá vai. Agora, célere e discreto, perpendicular à terra, com as fulvas cores de oiro e os azuis metálicos da sua bela plumagem. Lá vai, e é como uma projecção fulminante e fugaz, a afirmação da força e do poder..."
Porém, a ave despenhou-se do alto, veio rolando numa cambalhota grotesca, e ouviu-se o baque do seu corpo no solo, não muito longe, entre canaviais. A multidão aplaudiu.
"Ah!" – continuou o pequeno visionário. "Agora tu! Sobe, escapa-te mais subtil que um fio de brisa, mais veloz que o rasto que vai após uma estrela, confundido na luz, na sombra, no pó e na aragem.
Foge, alcança depressa as regiões altíssimas, os lugares perfeitos onde está em unidade o espírito do homem... Vai, pensamento, voa, sobe, atinge livremente os espaços inviolados..."
E o pombo voou. O seu colar cintilante, irisado, de pombo mensageiro, destacou-se com reflexos muito verdes no ar revolto pelo vento. Assim se distanciou e desapareceu. José aplaudiu. Isoladas, as suas palmas fizeram voltar todas as cabeças; houve um rumor de assombro, de troça, algumas frases picarescas. Como temia os olhares devassadores, os comentários vexatórios, discretamente, com muito tino, José levantou-se, e foi-se embora. O torneio que prosseguia, o vento desencadeado em rajadas mais violentas e que trazia, envolta com o pó, a flor da vinha, ocupavam todos os cuidados. Submerso naquele seu sobretudo precisamente cor de musaranho das águas, o pequeno visionário passou. Parece que ninguém o apontou nem reconheceu. E ele próprio pensava mais em não despertar a atenção de ninguém, do que no pombo que sobrevoara o rio como um dardo de prata e se projectara pelos espaços, insinuando-se e vencendo a direcção dos ventos.

Contos Portugueses Modernos (1984)


I

Divide o texto em sequências narrativas.

Resume o assunto de cada um dos momentos através de uma frase-síntese.

1. Sintetiza o assunto do texto.

2. Identifica o tempo em que decorre a acção.

3. Caracteriza o espaço do texto.

4. Caracteriza a(s) personagem(s) intervenientes na acção.

5. Justifica a relação que se estabelece no texto entre o José e o Pombo.

6. Relaciona o título do texto com o seu assunto.