7.11.09

Frade

Vem um frade com ua Moça pela mão, e um Broquel debaixo do capelo; e ele, mesmo fazendo a baixa, começou de dançar, dizendo.
FRA. Tai-rai-rai-ra-rão, ta-ri-ri-rão, (…)
DIA. Que é isso, padre ? Que vai lá?
FRA. Deo gratias! Som cortesão.
DIA. Sabes também o tordião?
FRA. Porque não? Como ora sei!
DIA. Pois, entrai! Eu tangerei
e faremos um serão.

Essa dama, é ela vossa?
FRA. Por minha la tenho eu,
E sempre a tive de meu.
DIA. Fezeste bem, que é fermosa!
E não vos punham lá grosa
no vosso convento santo?
FRA. E eles fazem outro tanto!
DIA. Que cousa tão preciosa!
Entrai, padre reverendo!
FRA. Para onde levais gente?
DIA. Pera aquele fogo ardente
que nom temeste vivendo.
FRA. Juro a Deus que não t’ entendo!
E este hábito no me val?
DIA. Gentil padre mundanal,
a Berzabu vos encomendo!
FRA. Ah, Corpo de Deos consagrado!
Pela fé de Jesu Cristo,
que eu nom posso entender isto!
Eu hei-de ser condenado?
Um padre tão namorado
e tão dado à virtude? (…)
Como? Por ser namorado
e folgar com ua mulher
se há um frade de perder,
com tanto salmo rezado?

(...)

Auto da Barca do Inferno, Gil Vicente


I

1. O Frade entra em cena com vários elementos.
1.1. Explica o significado desses elementos.

2. Apresenta os argumentos de defesa do Frade.

3. Transcreve do texto um exemplo de:
a) ironia
b) eufemismo

4. Nesta cena, há vários tipos de cómico.
4.1. Identifica-os, apresentando exemplos.


II

1. Identifica e classifica os fenómenos fonéticos ocorridos nas seguintes palavras:
a) ibi > ii > aí
b) patrem > patre > padre
c) clamar > chamar


III

1. Comenta a seguinte frase:
No teatro vicentino temos um espelho crítico da sociedade da época.