12.11.09

Amor de Perdição




Ao anoitecer daquele dia, pediu Teresa os sacramentos, e comungou à grade do coro, onde se foi amparando à sua criada. Parte das horas da noite passou-as sentada ao pé do santuário de sua tia, que toda a noite orou. Algumas vezes pediu que a levassem à janela que se abria para o mar, e não sentia ali a frialdade da viração. Conversava serenamente com as freiras, e despedira-se de todas, uma a uma, indo por seu pé às celas das senhoras entrevadas para lhes dar o beijo da despedida.
Todas cuidavam em reanimá-la, e Teresa sorria, sem responder aos piedosos artifícios com que as boas almas a si mesmas queriam simular esperanças. Ao abrir da manhã, Teresa leu uma a uma as cartas de Simão Botelho. As que tinham sido escritas nas margens do Mondego enterneciam-na a copiosas lágrimas. Eram hinos à felicidade prevista: eram tudo que mais formoso pode dar o 10 coração humano, quando a poesia da paixão dá cor ao pensamento, e uma formosa e inspirativa natureza lhe empresta os seus esmaltes. Então lhe acudiam vivas reminiscências daqueles dias: a sua alegria doida, as suas doces tristezas, esperanças a desvanecerem saudades, os mudos colóquios com a irmã querida de Simão, o céu aromático que se lhe alargava à aspiração sôfrega de vagos desejos, tudo, enfim, que lembra a desgraçados.
Emaçou depois as cartas, e cintou-as com fitas de seda desenlaçadas de raminhos de flores murchas, que Simão, dois anos antes, lhe atirara da sua janela ao quarto dela.
As pétalas das flores soltas quase todas se desfizeram, e Teresa, contemplando-as, disse: -"Como a minha vida..." - e chorou, beijando os cálices desfolhados das primeiras que recebera.
(...)
Ouviu-se a voz de levar âncora, e largar amarras. Simão encostou-se à amurada da nau, com os os olhos fitos no mirante.
Viu agitar-se um lenço, e ele respondeu com o seu àquele aceno. Desceu a nau ao mar, e passou fronteira ao convento. Distintamente Simão viu um rosto e uns braços suspensos das reixas de ferro; mas não era Teresa aquele rosto: seria antes um cadáver que subiu da clausura ao mirante, com os ossos da cara inçados ainda das herpes da sepultura.
- É Teresa? - perguntou Simão a Mariana.
- É senhor, é ela - disse num afogado gemido a generosa criatura, ouvindo o seu coração dizer-lhe que a alma do condenado iria breve no seguimento daquela por quem se perdera.
De repente aquietou o lenço que se agitava no mirante, e entreviu Simão um movimento impetuoso de alguns braços, e o desaparecimento de Teresa e do vulto de Constança, que ele divisara mais tarde.
A nau parou defronte de Sobreiras. Uma nuvem no horizonte da barra e o súbito encapelamento das ondas causaram a suspensão da viagem anunciada pelo comandante. Em seguida, velejou da Foz uma catraia com o piloto-mor, que mandava lançar ferro até novas ordens. Mais tarde, adiou-se a saída para o dia seguinte.
E, no entanto, Simão Botelho, como o cadáver embalsamado, cujos olhos artificiais rebrilham cravados e imotos num ponto, lá tinha os seus imersos na anterior escuridade do miradouro. Nenhum sinal de vida. E as horas passaram até que o derradeiro raio de sol se apagou nas grades do mosteiro.
Ao escurecer, voltou de terra o comandante, e contemplou, com os olhos embaciados de lágrimas, o desterrado, que contemplava as primeiras estrelas iminentes ao mirante.
- Procura-a no Céu? - disse o nauta.
- Se a procuro no Céu! - repetiu maquinalmente Simão.
- Sim!... no Céu deve ela estar.
- Quem, senhor?
- Teresa.
- Teresa!... Morreu?!
- Morreu, além, no mirante, donde ela estava acenando. Simão curvou-se sobre a amurada, e fitou os olhos na torrente. O comandante lançou-lhe os braços e disse:
- Coragem, grande desgraçado, coragem! Os homens do mar também crêem em Deus! Espere que o Céu se abra para si pelas súplicas daquele anjo!

Camilo Castelo Branco, Amor de Perdição



I

Faça a análise global ao excerto, tendo em atenção os seguintes tópicos:
• Assunto e sua inserção na estrutura narrativa do Amor de Perdição.
• Dramatismo da cena e sentimentos expressos.
• A importância das cartas.
• Linguagem e estilo.
• Marcas da estética e da sensibilidade românticas.


II

No Amor de Perdição, o narrador alude ao «fatal destino», à «má estrela». Redija uma curta mas cuidada composição em que demonstre que o destino fatalista é uma das molas motoras do desenvolvimento da acção da novela de Camilo.