23.10.09

O sal e a água

Um rei tinha três filhas; perguntou a cada uma delas, por sua vez, qual era a mais sua amiga.
A mais velha respondeu:
- “Quero mais a meu pai do que à luz do sol”.
Respondeu a do meio:
- “Gosto mais de meu pai do que de mim mesma”.
A mais moça respondeu:
- “Quero-lhe tanto, como a comida quer o sal”.
O rei entendeu por isto que a filha mais nova o não amava tanto como as outras, e pô-la fora do palácio. Ela foi muito triste por esse mundo, e chegou ao palácio de um rei, e aí se ofereceu para ser cozinheira. Um dia veio à mesa um pastel muito bem feito, e o rei ao parti-lo achou dentro um anel muito pequeno, e de grande preço. Perguntou a todas as damas da corte de quem seria aquele anel. Todas quiseram ver se o anel lhes servia; foi passando, até que foi chamada a cozinheira e só a ela é que o anel servia. O príncipe viu isto e ficou logo apaixonado por ela, pensando que era de família de nobreza.
Começou então a espreitá-la porque ela só cozinhava às escondidas, e viu-a vestida com trajos de princesa. Foi chamar o rei seu pai e ambos viram o caso. O rei deu licença ao filho para casar com ela, mas a menina tirou por condição que queria cozinhar pela sua mão o jantar do dia da boda. Para as festas do noivado convidou-se o rei que tinha três filhas e que pusera fora de casa a mais nova. A princesa cozinhou o jantar, mas nos manjares que haviam de ser postos ao rei seu pai não botou sal de propósito. Todos comiam com vontade, mas só o rei convidado é que nada comia. Por fim perguntou-lhe o dono da casa, porque é que o rei não comia. Respondeu ele, não sabendo que assistia ao casamento da filha:
- “É porque a comida não tem sal”.
O pai do noivo fingiu-se raivoso, e mandou que a cozinheira viesse ali dizer porque é que não tinha botado sal na comida. Veio então a menina vestida de princesa, mas assim que o pai a viu, conheceu-a logo, e confessou ali a sua culpa, por não ter percebido quanto era amado por sua filha, que lhe tinha dito que lhe queria tanto como a comida quer o sal, e que depois de sofrer tanto nunca se queixara da injustiça de seu pai.

Teófilo Braga, in Contos Tradicionais Portugueses


I

1.O texto apresentado é um conto tradicional.
1.1. Define conto tradicional.

2. Identifica os protagonistas da história.

2.1.Refere duas características psicológicas de cada uma dessas personagens, justificando as tuas escolhas.

3. (…) mas a menina tirou por condição que queria cozinhar pela sua mão o jantar do dia da boda.
3.1. Explica porquê.

4. Transcreve do texto duas expressões que comprovem que o tempo e o espaço são indefinidos.

5. Tratando-se de um conto tradicional, é natural que este texto contenha palavras e expressões de sabor popular.
5.1. Transcreve dois exemplos.

6. Explica por palavras tuas a moral transmitida neste conto.

7. Classifica o narrador quanto à posição e participação.