22.10.09

O auto-retrato



Eu sei que não vou sair disto tudo muito bem vista. Eu sei que devia ser uma rapariga muito
simpática e bem educada, sim senhora, não senhora, ora essa, faça favor, obrigadinha e desculpe.
Maria João uma sua criada.
Como a Vitória do lado, por exemplo.
Um poço de virtudes, a Vitória do lado.
Às vezes chego a pensar que o poço é tão profundo, mas tão profundo, que se um dia a Vitória do lado cai lá para dentro, se apaga no meio de tanta virtude.
Bom, mas isso é lá com ela.
As minhas virtudes, coitadas, é que não são coisa que se veja a olho nu. Acho mesmo que só a microscópio se deve conseguir descobrir alguma.
Para lá de não ser nenhum poço de virtudes (nem charco, quanto mais poço) tenho de confessar que sou feiota. Para já sou alta de mais para os meus 14 anos o que faz, por um lado, que a malta toda lá da escola comece com aquelas graças parvas, “então como é que está o tempo lá em cima?”, “quando chegares cá abaixo fecha o pára-quedas”, coisas assim, vocês sabem: e, por outro lado, faz com que cada vez que a minha mãe ou o meu pai (que nisto, benza-os Deus!, são iguaizinhos) me apresentam a qualquer desconhecido lá das relações deles, avancem logo com a frase “por este andar não sei onde é que ela vai parar”.
Tenho óculos graduados, tenho a mania dos livros, e sobretudo do teatro que vai ser a carreira em que eu vou brilhar para o resto da vida. Nada me dá mais prazer do que decorar tiradas enormes de peças e depois dizê-las diante do espelho, mãos para cima, mãos para baixo, mãos a bater no peito, mãos a bater na testa, desmaios q. b. (este q.b. quer dizer “quanto baste” e aprendi no livro de receitas da minha mãe, o que prova que em toda a par-te se aprende...).
É claro que quando falo no meu destino de actriz, o Gil Eanes diz sempre que só se me cortarem as pernas ao meio, porque nunca viu nenhuma ingénua com um metro e setenta, a Ter de se enrolar toda para conseguir poisar a cabeça a chorar no ombro do seu amado. Mas o Gil Eanes é parvo, não conta. E, para além de ser parvo, acho que nunca entrou num teatro em dias da vida dele.
Devo ainda dizer que não sou lá muito simpática. Quer dizer: não sou daquelas que por tudo
e por nada (quase sempre por nada) andam às festinhas, aos beijinhos, ai que linda que tu és, ai que eu gosto tanto de ti, tens calendários para troca, coisas assim. Não, isso realmente eu não sou.

Alice Vieira, Úrsula a Maior



I


1.1. Refere o autor (pessoa que cria a história) e o local de onde a história foi retirada.
1.2. De que tipo de narrador trata a história.
1.3. Quais as personagens que participam na história.
1.4. Caracteriza as personagens.
1.5. A caracterização das personagens no texto foi feita pelo narrador ou por uma análise do comportamento das personagens.
1.6. Procede à caracterização do espaço (onde) e do tempo (quando):
1.7. Este texto é uma narrativa aberta ou uma narrativa fechada?

2. Elabora frases do tipo Declarativo (.), Interrogativo (?), Imperativo (.) e Exclamativo (!) e
de forma Afirmativa e Negativa.

3. Classifica as palavras quanto à acentuação (agudas, graves ou esdrúxulas):
3.1. Também
3.2. Página
3.3. Mania
3.4. Mãe
3.5. Público
3.6. João

4. Classifica as palavras, conforme o número de sílabas (monossílabas uma só sílaba; dissílabo duas sílabas; polissílabo mais de duas sílabas):
4.1. pão
4.2. Cair
4.3. exemplar

5. Divide as sílabas por translineação (partição das palavras pela soletração):
5.1. Cinema
5.2. Psicologia
5.3. Professor
5.4. Facto
5.5. Acto
5.6. Atleta

6. Forma a partir das palavras primitivas: água, mar, chuva, palavras derivadas:
6.1. Água:
6.2. Mar:
6.3. Chuva:


7. Classifica, quanto à composição, as palavras:
7.1. Passaporte
7.2. Amor-perfeito
7.3. Guarda-chuva
7.4. Pontapé

8. Classifica as palavras seguintes quanto aos afixos (prefixos e sufixos):
8.1. Desfazer
8.2. Aguar
8.3. Irreal

9. Forma um campo semântico da palavra JARDIM: