11.10.09

A Menina do Mar


Na praia

Era uma vez uma casa branca nas dunas, voltada para o mar. Tinha uma porta, sete janelas e uma varanda de madeira pintada de verde. Em roda da casa havia um jardim de areia onde cresciam lírios brancos e uma planta que dava flores brancas, amarelas e roxas.
Nessa casa morava um rapazito que passava os dias a brincar na praia.
Era uma praia muito grande e quase deserta onde havia rochedos maravilhosos. Mas durante a maré alta os rochedos estavam cobertos de água. Só se viam ondas que vinham crescendo do longe até quebrarem na areia com um barulho de palmas. Mas na maré vazia as rochas apareciam cobertas de limo, de búzios, de anémonas, de lapas, de algas e de ouriços. Havia poças de água, rios, caminhos, grutas, arcos, cascatas. Havia pedras de todas as cores e feitios, pequeninas e macias, polidas pelas ondas. E a água do mar era transparente e fria. [...]
Em Setembro veio o equinócio. Vieram marés vivas, ventanias, nevoeiros, chuvas, temporais. As marés altas varriam a praia e subiam até à duna. Certa noite, as ondas gritaram tanto, uivaram tanto, bateram e quebraram-se com tanta força na praia, que, no seu quarto caiado da casa branca, o rapazinho esteve até altas horas sem dormir. As portadas das janelas batiam. As madeiras do chão estalavam como i madeiras de mastros. Parecia que as ondas iam cercar a casa e que o mar ia devorar o Mundo. [...] Mas por fim, cansado de escutar, adormeceu embalado pelo temporal.
De manhã quando acordou estava tudo calmo. A batalha tinha acabado. Já não se ouviam os gemidos do vento, nem os gritos do mar, mas só um doce murmúrio de ondas pequeninas. E o rapazinho saltou da cama, foi à janela e viu uma manhã linda de sol brilhante, céu azul e mar azul. Estava maré vaza. Pôs o fato de banho e foi para a praia a correr. Tudo estava tão calmo e sossegado que ele pensou que o temporal da véspera tinha sido um sonho.
Mas não tinha sido um sonho. A praia estava coberta de espumas deixadas pelas ondas da tempestade.


Sophia de Mello Breyner Andresen, A Menina do Mar



I

1. Centra-te na personagem.
1.1 Identifica-a e caracteriza-a por palavras tuas.

2. A acção evolui em função de um determinado acontecimento.
2.1 Indica-o e refere as mudanças que provoca.

3. Repara no tempo em que decorre a acção.
3.1 Sublinha as marcas temporais presentes no texto.

4. A acção desenrola-se num determinado espaço.
4.1 Identifica-o, retirando do texto uma frase que o comprove.
4.2 Descreve esse espaço, sem parafrasear o texto.

5. Atenta na figura do narrador.
5.1 Classifica-o relativamente à sua participação na acção, justificando conveniente-mente.

6. O texto é predominantemente descritivo.
6.1 Concordas com esta afirmação? Fundamenta a tua resposta.

7. Transcreve do texto um exemplo de:
a) comparação;
b) enumeração;
c) personificação;
d) dupla adjectivação.

8. Retira do texto frases, respeitando as indicações que te são dadas:
Declarativo - Afirmativa
Declarativo- Negativa


9. Transcreve do texto duas formas verbais no:
a) pretérito imperfeito do modo indicativo;
b) pretérito perfeito do modo indicativo.

10. Analisa sintacticamente a frase que se segue: «Em Setembro veio o equinócio.»

II

«Mas não tinha sido um sonho. A praia estava coberta de espumas deixadas pelas ondas da tempestade.»
Redige a continuação desta história, imaginando o que terá acontecido ao rapaz naquele dia, após o temporal.