23.10.09

A Imitação da Rosa

CLARICE LISPECTOR, Laços de Família


Mas agora que ela estava de novo “bem”, tomariam o ônibus, ela olhando como uma esposa pela janela, o braço no dele, e depois jantariam com Carlota e João, recostados na cadeira com intimidade. Há quanto tempo não via Armando enfim se recostar com intimidade e conversar com um homem? A paz de um homem era, esquecido de sua mulher, conversar com outro homem sobre o que saía nos jornais. Enquanto isso ela falaria com Carlota sobre coisas de mulheres, submissa à bondade autoritária e prática de Carlota, recebendo enfim de novo a desatenção e o vago desprezo da amiga, a sua rudeza natural, e não mais aquele carinho perplexo e cheio de curiosidade — vendo enfim Armando esquecido da própria mulher. E ela mesma, enfim, voltando à insignificância com reconhecimento. Como um gato que passou a noite fora e, como se nada tivesse acontecido, encontrasse sem uma palavra um pires de leite esperando. As pessoas felizes ajudavam a fazê-la sentir que agora estava “bem”. Sem a fitarem, ajudavam-na activamente a esquecer, fingindo elas próprias o esquecimento como se tivessem lido a mesma bula do mesmo vidro de remédio. Ou tinham esquecido realmente, quem sabe? Há quanto tempo não via Armando enfim se recostar com abandono, esquecido dela? E ela mesma?


Do princípio do conto A Imitação da Rosa



1. Segundo a narradora qual era a paz de um homem?
2. Como é que as pessoas ajudavam a narradora a fazê-la sentir que agora estava “bem”?
3. As mulheres são em geral as personagens principais nos contos de Laços de Família. Comenta.