28.10.09

Ignoto Deo

D.D.D.

Creio em ti, Deus: a fé viva
De minha alma a ti se eleva.
És - o que és não sei. Deriva
Meu ser do teu: luz... e treva,
Em que - indistintas! - se envolve
Este espírito agitado,
De ti vem, a ti devolve.
O Nada, a que foi roubado
Pelo sopro criador
Tudo o mais, o há-de tragar.
Só vive de eterno ardor
O que está sempre a aspirar
Ao infinito donde veio.
Beleza és tu, luz és tu,
Verdade és tu só. Não creio
Senão em ti; o olho nu.
Do homem não vê na terra
Mais que a dúvida, a incerteza,
A forma que engana e erra.
Essência!, a real beleza,
O puro amor - o prazer
Que não fatiga e não gasta...
Só por ti os pode ver
O que inspirado se afasta,
Ignoto Deus, das ronceiras,
Vulgares turbas: despidos
Das coisas vãs e grosseiras
Sua alma, razão, sentidos,
A ti se dão, em ti vida,
E por ti vida têm. Eu, consagrado
A teu altar, me prosto e a combatida
Existência aqui ponho, aqui votado
Fica este livro – confissão sincera
Da alma que a ti voou e em ti só 'spera.

Almeida Garrett, Folhas Caídas



1. Detecte vestígios do amor platónico.

2. Relacione o poema com a referência que o poeta lhe faz na Advertência.

3. Faça o levantamento das marcas da segunda pessoa.

4. Estabeleça, a nível do conteúdo e da forma, a relação platonismo/tu.

5. Identifique as oscilações do EU ao longo do poema.

6. Refira as dicotomias existentes.

7. Demonstre que o poeta desce ao materialismo da existência, mas que, apesar de tudo, dá-se uma ascese.

8. Procure identificar no texto a alegoria desta ascese.

9. Justifique o facto de a nostalgia de um paraíso perdido aparecer no poema que abre a colectânea.