11.9.09

O Tesouro


Na clareira, em frente à moita que encobria o tesouro (e que os três tinham desbastado a cutiladas) um fio de água brotando entre rochas caía sobre uma vasta laje escavada, onde fazia como um tanque, claro e quieto, antes de se escoar para as relvas altas. E ao lado, na sombra de uma faia, jazia um velho pilar de granito, tombado e musgoso. Ali vieram sentar-se Rui e Rostabal, com os seus tremendos espadões entre os joelhos. As duas éguas retouçavam a boa erva pintalgada de papoulas e botões-de-ouro. Pela ramaria andava um melro a assobiar. Um cheiro errante de violetas adoçava o ar luminoso. E Rostabal, olhando o Sol, bocejava com fome.
Então Rui, que tirara o sombrero e lhe cofiava as velhas plumas roxas, começou a considerar, na sua fala avisada e mansa, que Guanes, nessa manhã, não quisera descer com eles à mata de Roquelanes. E assim era a sorte ruim! Pois que se Guanes tivesse quedado em Medranhos, só eles dois teriam descoberto o cofre, e só entre eles dois se dividiria o ouro! Grande pena! Tanto mais que a parte de Guanes seria em breve dissipada, com rufiões, aos dados, pelas tavernas.
- Ah! Rostabal, Rostabal! Se Guanes, passando aqui sozinho, tivesse achado este ouro, não dividia connosco, Rostabal!
O outro rosnou surdamente e com furor, dando um puxão às barbas negras:
- Não, mil raios! Guanes é sôfrego… Quando o ano passado, se te lembras, ganhou os cem ducados ao espadeiro de Fresno, nem me quis emprestar três para eu comprar um gibão novo!
- Vês tu? - gritou Rui, resplandecendo.
Ambos se tinham erguido do pilar de granito, como levados pela mesma ideia, que os des-lumbrava. E, através das suas largas passadas, as ervas altas silvavam.
- E para quê? - prosseguia Rui. - Para que lhe serve todo o ouro que nos leva? Tu não o ouves, de noite, como tosse? Ao redor da palha em que dorme, todo o chão está negro do sangue que escarra! Não dura até às outras neves, Rostabal! Mas até lá terá dissipado os bons dobrões que deviam ser nossos, para levantarmos a nossa cara, e para tu teres ginetes, e armas, e trajes nobres, e o teu berço de solarengos, como compete a quem é, como tu, o mais velho dos de Medranhos…
- Pois que morra, e morra hoje! – bradou Rostabal.
- Queres?
Vivamente, Rui agarrara o braço do irmão e apontava para a vereda de olmos, por onde Guanes partira cantando:
- Logo adiante, ao fim do trilho, há um sítio bom, nos silvados. E hás-de ser tu, Rostabal, que és o mais forte e o mais destro. Um golpe de ponta pelas costas. E é justiça de Deus que sejas tu, que muitas vezes, nas tavernas, sem pudor, Guanes te tratava de “cerdo” e “torpe”, por não saberes a letra nem os números.
- Malvado!

Eça de Queirós, “O Tesouro”, in Contos



Vocabulário:
cutiladas – golpes de cutelo (instrumento cortante);
quedar – ficar quedo; parar;
ducado – moeda de ouro;
faia – pequena árvore;
gibão – casaco curto;
retouçar – pastar;
cofiar – alisar com a mão (a barba ou o cabelo);
ginetes – cavalos pequenos, de boa raça.




I

1. Recorrendo ao conhecimento que tens da obra, refere a situação inicial do conto.
1.1. Indica o acontecimento que alterou a rotina dos três irmãos.

2. Ao contrário da situação que nos é apresentada no início do conto, agora, no presente excerto, os protagonistas são apenas dois. Identifica-os.
2.1. Recordando a obra na íntegra, aponta os motivos que levaram à ausência do outro irmão.

3. No presente excerto, os dois irmãos falam sobre o irmão ausente. Como o caracterizam?
3.1. “Ambos se tinham erguido do pilar de granito, como levados pela mesma ideia, que os deslumbrava.” Qual a ideia a que se refere o texto? Justifica.

4. A partir dos elementos que este texto apresenta, traça o retrato psicológico das duas personagens nele presentes.

5. No parágrafo inicial do excerto predomina a descrição. Justifica esta afirmação.
5.1. Refere dois recursos estilísticos nele presentes e demonstra a sua expressividade.

6. Explica o uso do verbo e do advérbio, destacando a sua expressividade, no exemplo seguinte:
a) “O outro rosnou surdamente e com furor..”;

7. Explica o sentido das expressões:
a) “..na sua fala avisada e mansa...”
b) “Não dura até às outras neves, Rostabal!”
c) “...por não saberes as letras nem os números.”

8. O discurso indirecto livre é uma marca do discurso queirosiano. Transcreve marcas do seu uso.