25.9.09

Esse baixel nas praias derrotado

À FRAGILIDADE DA VIDA HUMANA

Esse baixel nas praias derrotado
Foi nas ondas Narciso presumido;
Esse farol nos céus escurecido
Foi do monte libré, gala do prado.

Esse nácar em cinzas desatado
Foi vistoso pavão de Abril florido;
Esse Estio em Vesúvios incendido
Foi Zéfiro suave, em doce agrado.

Se a nau, o Sol, a rosa, a Primavera
Estrago, eclipse, cinza, ardor cruel
Sentem nos auges de um alento vago,

Olha, cego mortal, e considera
Que é rosa, Primavera, Sol, baixel,
Para ser cinza, eclipse, incêndio, estrago.

Francisco de Vasconcelos, Fénix Renascida



I

1. O poeta jogo neste poema com dois conceitos que são antagónicos. Identifique-os.

2. Quais são os elementos simbólicos que caracterizam cada um desses conceitos? Justifique a sua resposta.

3. Identifique o tema do poema e justifique as razões que levaram os autores barrocos a insistirem nesse tema.

4. Explicite a significação de cegos mortais.

5. Comente o título do poema.

6. Indique no poema aspectos formais próprios da estética barroca.

7. Faça uma breve apreciação estilística do poema.

8. Proceda à análise da sua estrutura externa.


II

Tendo em conta o tema do poema de Francisco de Vasconcelos, procure reflectir na problemática da vida e da morte à luz das ideias dos nossos dias.





14.9.09

Discurso de Nuno Álvares (C.III, 14-17)

14
«Mas nunca foi que este erro se sentisse
No forte Dom Nuno Álvares; mas antes,
Posto que em seus irmãos tão claro o visse,
Reprovando as vontades inconstantes,
Àquelas duvidosas gentes disse,
Com palavras mais duras que elegantes,
A mão na espada, irado e não facundo,
Ameaçando a terra, o mar e o mundo:

15
"Como?! Da gente ilustre Portuguesa
Há-de haver quem refuse o pátrio Marte?
Como?! Desta província, que princesa
Foi das gentes na guerra em toda parte,
Há-de sair quem negue ter defesa?
Quem negue a Fé, o amor, o esforço e arte
De Português, e por nenhum respeito,
O próprio Reino queria ver sujeito?

16
"Como?! Não sois vós inda os descendentes
Daqueles que, debaixo da bandeira
Do grande Henriques, feros e valentes,
Vencestes esta gente tão guerreira,
Quando tantas bandeiras, tantas gentes
Puseram em fugida, de maneira
Que sete ilustres Condes lhe trouxeram
Presos, afora a presa que tiveram?

17
"Com quem foram contino sopeados
Estes, de quem o estais agora vós,
Por Dinis e seu filho sublimados,
Senão cos vossos fortes pais e avós?
Pois se, com seus descuidos ou pecados,
Fernando em tal fraqueza assi vos pôs,
Torne-vos vossas forças o Rei novo,
Se é certo que co Rei se muda o povo.

Luís de Camões, Os Lusíadas, Canto III



I

1. Quem é Dom Nuno Álvares?

2. Que circunstâncias políticas motivaram o discurso de Dom Nuno Álvares?

3. Porque é que Dom Nuno fala com tanta indignação?

4. Que argumentos apresenta para convencer os seus ouvintes?

5. Quem é que Dom Nuno Álvares invoca ao longo do seu discurso? Porquê?

6. Diga o que entende por «o pátrio Marte» e «contino sopeados».

7. Identifique a figura de estilo presente nos últimos versos da estância 14 e comente o seu valor expressivo.

8. Faça a análise formal (estrofe, métrica e rima) da estância 16.

9. Atente nos seguintes versos: «Vencestes esta gente tão guerreira, / Quando tantas bandeiras, tantas gentes / Puseram em fugida».

9.1. Divida e classifique as orações.

9.2. Faça a análise sintáctica da terceira oração.


II

Numa composição cuidada, comente a expressão «co Rei se muda o povo» e fala da importância da história de Portugal na acção de Os Lusíadas.





12.9.09

A fermosura desta fresca serra



A fermosura desta fresca serra,
e a sombra dos verdes castanheiros,
O manso caminhar destes ribeiros,
donde toda a tristeza se desterra;

o rouco som do mar, a estranha terra,
o esconder do sol pelos outeiros,
o recolher dos gados derradeiros,
das nuvens pelo ar a branda guerra;

enfim, tudo o que a rara natureza
com tanta variedade nos oferece,
me está (se não te vejo) magoando.

Sem ti, tudo me enoja e me aborrece;
sem ti, perpetuamente estou passando
nas mores alegrias, mor tristeza.

Luís de Camões



I


1. Nas duas quadras são-nos fornecidos por acumulação elementos da Natureza. Explicita-os.
1.1. Refere os processos morfossintácticos através dos quais as qualidades desses elementos são postas em destaque.
1.2. Tendo em conta as respostas anteriores, caracteriza o ambiente retratado.

2. “Enfim, tudo o que a rara Natureza / com tanta variedade nos oferece”
Demonstra que estes versos correspondem à síntese das estrofes anteriores.

3. Pela organização lógica do discurso, poderemos considerar que o poema se divide em duas partes. Delimita cada uma dessas partes.
3.1. Explicita a contradição existente entre a primeira e a segunda parte do poema, referindo o motivo dessa contradição.

4. Refere as marcas da influência petrarquista neste soneto.



11.9.09

O Tesouro


Na clareira, em frente à moita que encobria o tesouro (e que os três tinham desbastado a cutiladas) um fio de água brotando entre rochas caía sobre uma vasta laje escavada, onde fazia como um tanque, claro e quieto, antes de se escoar para as relvas altas. E ao lado, na sombra de uma faia, jazia um velho pilar de granito, tombado e musgoso. Ali vieram sentar-se Rui e Rostabal, com os seus tremendos espadões entre os joelhos. As duas éguas retouçavam a boa erva pintalgada de papoulas e botões-de-ouro. Pela ramaria andava um melro a assobiar. Um cheiro errante de violetas adoçava o ar luminoso. E Rostabal, olhando o Sol, bocejava com fome.
Então Rui, que tirara o sombrero e lhe cofiava as velhas plumas roxas, começou a considerar, na sua fala avisada e mansa, que Guanes, nessa manhã, não quisera descer com eles à mata de Roquelanes. E assim era a sorte ruim! Pois que se Guanes tivesse quedado em Medranhos, só eles dois teriam descoberto o cofre, e só entre eles dois se dividiria o ouro! Grande pena! Tanto mais que a parte de Guanes seria em breve dissipada, com rufiões, aos dados, pelas tavernas.
- Ah! Rostabal, Rostabal! Se Guanes, passando aqui sozinho, tivesse achado este ouro, não dividia connosco, Rostabal!
O outro rosnou surdamente e com furor, dando um puxão às barbas negras:
- Não, mil raios! Guanes é sôfrego… Quando o ano passado, se te lembras, ganhou os cem ducados ao espadeiro de Fresno, nem me quis emprestar três para eu comprar um gibão novo!
- Vês tu? - gritou Rui, resplandecendo.
Ambos se tinham erguido do pilar de granito, como levados pela mesma ideia, que os des-lumbrava. E, através das suas largas passadas, as ervas altas silvavam.
- E para quê? - prosseguia Rui. - Para que lhe serve todo o ouro que nos leva? Tu não o ouves, de noite, como tosse? Ao redor da palha em que dorme, todo o chão está negro do sangue que escarra! Não dura até às outras neves, Rostabal! Mas até lá terá dissipado os bons dobrões que deviam ser nossos, para levantarmos a nossa cara, e para tu teres ginetes, e armas, e trajes nobres, e o teu berço de solarengos, como compete a quem é, como tu, o mais velho dos de Medranhos…
- Pois que morra, e morra hoje! – bradou Rostabal.
- Queres?
Vivamente, Rui agarrara o braço do irmão e apontava para a vereda de olmos, por onde Guanes partira cantando:
- Logo adiante, ao fim do trilho, há um sítio bom, nos silvados. E hás-de ser tu, Rostabal, que és o mais forte e o mais destro. Um golpe de ponta pelas costas. E é justiça de Deus que sejas tu, que muitas vezes, nas tavernas, sem pudor, Guanes te tratava de “cerdo” e “torpe”, por não saberes a letra nem os números.
- Malvado!

Eça de Queirós, “O Tesouro”, in Contos



Vocabulário:
cutiladas – golpes de cutelo (instrumento cortante);
quedar – ficar quedo; parar;
ducado – moeda de ouro;
faia – pequena árvore;
gibão – casaco curto;
retouçar – pastar;
cofiar – alisar com a mão (a barba ou o cabelo);
ginetes – cavalos pequenos, de boa raça.




I

1. Recorrendo ao conhecimento que tens da obra, refere a situação inicial do conto.
1.1. Indica o acontecimento que alterou a rotina dos três irmãos.

2. Ao contrário da situação que nos é apresentada no início do conto, agora, no presente excerto, os protagonistas são apenas dois. Identifica-os.
2.1. Recordando a obra na íntegra, aponta os motivos que levaram à ausência do outro irmão.

3. No presente excerto, os dois irmãos falam sobre o irmão ausente. Como o caracterizam?
3.1. “Ambos se tinham erguido do pilar de granito, como levados pela mesma ideia, que os deslumbrava.” Qual a ideia a que se refere o texto? Justifica.

4. A partir dos elementos que este texto apresenta, traça o retrato psicológico das duas personagens nele presentes.

5. No parágrafo inicial do excerto predomina a descrição. Justifica esta afirmação.
5.1. Refere dois recursos estilísticos nele presentes e demonstra a sua expressividade.

6. Explica o uso do verbo e do advérbio, destacando a sua expressividade, no exemplo seguinte:
a) “O outro rosnou surdamente e com furor..”;

7. Explica o sentido das expressões:
a) “..na sua fala avisada e mansa...”
b) “Não dura até às outras neves, Rostabal!”
c) “...por não saberes as letras nem os números.”

8. O discurso indirecto livre é uma marca do discurso queirosiano. Transcreve marcas do seu uso.





8.9.09

O barroco e a literatura seiscentista


I

Responde a um amigo, que mandava perguntar a vida que fazia em sua prisão1

Casinha desprezível, mal forrada,
Furna2 lá dentro, mais que inferno escura;
Fresta pequena, grade bem segura;
Porta só para entrar, logo fechada;

Cama que é potro3, mesa destroncada,
Pulga que, por picar, faz matadura;
Cão só para agourar; rato que fura;
Candeia nem cos dedos atiçada;

Grilhão4 que vos assusta eternamente,
Negro boçal e mais boçal ratinho,
Que mais vos leva que vos traz da praça;

Sem amor, sem amigo, sem parente,
Quem mais se dói de vós, diz: «Coutadinho».
Tal vida levo. Santo prol me faça.

D. Francisco Manuel de Melo

Notas
1 Torre Velha, onde D. Francisco Manuel de Melo esteve preso de 1644 a 1653.
2 Caverna, cova.
3 Espécie de cavalo de madeira em que se torturavam os condenados.
4 Corrente metálica com que se prendiam as pernas aos acusados.



I

Após leitura atenta do soneto transcrito, responda às seguintes questões:

1. Demonstre que neste poema a descrição está organizada do geral para o particular.

2. Recolha do texto algumas expressões que conferem à descrição uma carga de negatividade.

3. Indique em que medida esta "casinha desprezível" pode ser uma metáfora de "prisão".

4. Justifique a contradição existente nas afirmações do último verso do poema.

5. Proceda à análise formal do soneto:
5.1. Indique o esquema rimático.
5.2. Classifique as rimas da primeira quadra:
• quanto à disposição ou ligação entre os versos;
• quanto à acentuação;
• quanto às classes gramaticais das terminações ou frequência de uso;
• quanto aos elementos vocálicos e consonânticos das terminações.
5.3. Faça a escansão dos dois primeiros versos do soneto.
5.4. Classifique-os quanto ao número de sílabas métricas e quanto à posição das sílabas tónicas


II

Tendo em conta os textos do barroco estudados, demonstre a veracidade da seguinte afirmação:

O barroco é o contrapolo da maneira clássica. O simples e claro dos processos clássicos insinua dis-creta e lentamente, encantando a inteligência e a alma inteira pela graça inabalável de uma beleza nua; o que o barroco visa, pelo contrário, é a explosão do espanto; é o dom de surpreender e de atur-dir o espírito à força de ornamentar e de rebuscar.

António Sérgio, Ensaios, V, 2.ª ed, Lisboa