18.7.09

Uma Esplanada sobre o Mar


(...)
- Nunca reparaste que há certas coisas que nós já vimos muitas vezes e que de vez em quando é como se fosse a primeira?
- Nunca reparei - disse a rapariga.
- Nunca ficaste a olhar o mar muito tempo?
- Sim, já fiquei.
- Ou o lume de um fogão? - disse o rapaz.
- E que queres dizer com isso?
- Ou uma flor. Ou ouvir um pássaro cantar.
- Sim, sim.
- Não há nada mais igual do que o mar ou o lume ou uma flor. Ou um pássaro. E a gente não se cansa de os ver ou ouvir. Só é preciso que se esteja disposto para achar diferença nessa igualdade. Posso olhar o mar e não reparar nele, porque já o vi. Mas posso estar horas a olhar e não me cansar da sua monotonia.
O rapaz tinha o olhar absorto na extensão das águas e permaneceu calado algum tempo. As águas brilhavam com o reflexo do sol na agitação breve das ondas. A rapariga calava-se também, fitando o rapaz, porque percebia que ele não acabara de falar. Mas o rapaz calou-se como se não tivesse mais nada a dizer e ela perguntou:
- Mas que é que querias dizer-me?
- Mesmo as coisas mais banais são diferentes se alguma coisa importante se passou em nós.
- Se alguma coisa importante se passou em nós, não reparamos nas coisas - disse a rapariga, acendendo um cigarro.
- Se é coisa mesmo importante, tudo se nos transfigura - disse o rapaz, de olhar alheado no horizonte.
- Que coisa importante? - perguntou a rapariga.
Mas ele não respondeu e ela perguntou outra vez:
- Que coisa importante?
- Não sei. Uma coisa importante. Se te morresse o pai e a mãe e ficasses subitamente sozinha, o mundo transfigurava-se. Se tivesses tentado o suicídio e te salvassem, mesmo as pedras e os cães começavam a ser diferentes. Estavas farta de conhecer os cães e as pedras, mas eles eram diferentes porque os olhavas com outros olhos.
E de novo se calou. Mas agora também a rapariga se calava na indistinta ameaça de não sabia o quê. O sol rodara um pouco, apanhava agora a cabeça do rapaz, incendiando-lhe o cabelo tombado para a testa. Levantou-se, tentou fazer girar o guarda-sol azul no pé de ferro articulado, seguro com um gancho recurvo e uma pequena corrente. Sentou-se de novo mas verificou que ficava ela agora com uma mancha de sol que lhe apanhava um ombro e o braço e uma pequena zona da face. Bebeu um pouco de refresco, olhou distraidamente a linha longínqua do limite do mar. Havia no rapaz uma notícia a dar, mas a rapariga não sabia como fazer a pergunta certa para estar certa com a resposta que queria ouvir.

Vergílio Ferreira, "Uma Esplanada sobre o Mar", in Contos


I

1. Refere a importância do espaço físico na acção.

2. Indica a maneira possível, segundo o rapaz, de quebrar a monotonia do quotidiano.

3. Distingue as perspectivas das personagens relativamente à banalidade das coisas.

4. O diálogo é interrompido por vezes pelo silêncio "E de novo se calou".
4.1. Explica o papel do silêncio na conversa.

5. Classifica o narrador, quanto à presença e quanto à ciência, justificando com expressões do texto.

6. Exemplifica os diferentes modos de apresentação da narrativa no texto.


II

1. "Posso olhar o mar e não reparar nele, porque já o vi."
1.1. Trata-se uma oração simples ou complexa? Justifica.
1.2. Divide e classifica as orações da frase?

2. Observa no texto a passagem seguinte:"(…) que lhe apanhava um ombro e o braço (…)".
2.1. Analisa-a sintacticamente.
2.2. Reconhece morfologicamente o "que" presente no excerto.

3. Atenta ainda numa outra passagem: "(…) tentou fazer girar o guarda-sol (…)".
3.1. Indica o processo de formação do nome destacado.
3.2. Forma o plural da mesma palavra.
3.3. Explica a regra que originou esse plural.



12.7.09

A Estrela


...“ Não estava muito pregada e saiu logo. Entalou-a então no cordel das calças, porque não tinha bolsos, e começou a descer. A chatice era se lhe caia e partia lá em baixo. Mas não a levando entalada, só se a levasse nos dentes , o que poderia dar em resultado parti-la à mesma . Porque precisava dos dentes para fazer força nos sítios mais difíceis. Em todo o caso, com jeito lá conseguiu . E assim que pôs o pé em terra, largou para casa, mas não muito depressa. Apetecia-lhe mesmo parar de vez em quando e olhar para a estrela com uma atenção especial. Era formidável. Lembrava um pirilampo mas muito maior. Oh, muito maior. E de outro feitio, já se vê. A certa altura voltou-se para trás e olhou ao alto o sítio de onde a despegara, como se para ver se realmente já lá não estava. E não. O que lá estava agora era um buraco escuro, por sinal bem feio. Lembrava-lhe a boca dele quando lhe caiu dente, mas não sabia bem porquê. Quando por fim chegou a casa, trepou á janela, que deixara aberta, e meteu-se na cama. Esteve ainda algum tempo com a estrela na mão, mas não muito, porque já não podia mais, arrombado de sono. De modo que guardou a estrela numa caixa e adormeceu. “...

Virgilio Ferreira, "A Estrela" In Contos

I


1. Identifica o conto a que pertence este excerto.
1.1.Contextualiza o excerto no momento da historia em que está inserido.

2. Qual é a personagem principal do conto?
2.1. Refere algumas das suas características (pelo menos duas) físicas e psicológicas.

3. Classifica o tipo de narrador existente no conto e retira exemplos do texto.

4. Divide o conto em partes e resume cada uma delas.


II


1. Do excerto apresentado, faz o levantamento de todos os verbos que estejam no pretérito perfeito e imperfeito, identificando-os.
1.1.Retira do excerto os adjectivos existentes, bem como os substantivos que lhe correspondem.

2. Identifica as figuras de estilo dos excertos que se seguem:
2.1. O sono tinha muita força
2.2. dizer-lhe ( ao sono ) que não

2.3. o medo vinha a correr também atrás dele

2.4. como se ( a estrela ) estivesse à sua espera

2.5.dobrando e desdobrando as pernas como se fosse uma rã
2.6. (A estrela ) lembrava um pirilampo Metáfora

2.7. arrombado de sono






4.7.09

Ao rigor de Lisi

Mais dura, mais cruel, mais rigorosa
Sois, Lísi, que o cometa, rocha ou muro
Mais rigoroso, mais cruel, mais duro,
Que o Céu vê, cerca o mar, a terra goza.

Sois mais rica, mais bela, mais lustrosa
Que a perla, rosa, Sol ou jasmim puro,
Pois por vós fica feio, pobre e escuro,
Sol em Céu, perla em mar, em jardim rosa.

Não viu tão doce, plácida e amena,
(Brame o mar, trema a terra, o Céu se agrave),
Luz o Céu, ave a terra, o mar sirena.

Vós triunfais de sirena', luz e ave,
Claro Sol, perla fina, rosa amena,
Mor cometa, árduo muro, rocha grave.

Jerónimo Baía, Fénix Renascida




I

1. Explicite a imagem da mulher transmitida pelo poema.

2. A construção do poema obedece a um rigor geométrico. Explicite-o.

3. Identifique os três símbolos fundamentais à volta do qual gravita o poema.

4. Comente o título do poema e relacione-o com a temática do mesmo.

5. Indique no poema aspectos formais próprios da estética barroca.

6. Faça uma breve apreciação estilística do poema.

7. Proceda à análise da sua estrutura externa.

8. Quais são as classes gramaticais mais abundantes no poema? Justifique a sua resposta.


II

No máximo de quinze linhas, fale da relação entre o homem e a mulher na actualidade e das dificuldades de entendimento entre ambos.



2.7.09

A Estrela



Tem em conta a leitura do conto "A Estrela" de Virgílio Ferreira.


I

1. Pedro, a personagem central do conto, tinha um desejo ardente – roubar a estrela ao céu.
a) Como surgiu esse desejo?
b) Para que queria ele a estrela desejada?

2. «No dia seguinte acordou tarde» e sofreu uma enorme desilusão. Porquê?

3. Qual a importância que a noite adquire neste conto?

4. Como explicas que apenas Pedro não se queime?

5. Explica a diferença de pontos de vista do Cigarra e do António Governo, a propósito do desaparecimento da estrela.

6. Classifica o narrador do conto quanto à presença.

7. Quais os modos de apresentação do discurso presentes no conto?

8. Pedro foi protagonista de uma história que o diferenciou dos restantes habitantes da aldeia.
a) Traça o retrato de Pedro.

9. Relê o último parágrafo do conto:
«Toda a gente chorou a sua morte. E o Cigarra, que andou de luto um ano inteiro, fez mesmo uns versos sobre ele para os cantar depois à viola. Já passaram muitos anos e ainda hoje se cantam. A estrela ainda lá está. Toda a gente a conhece.»
a) Foi completamente inútil o sonho de Pedro?
b) Dá uma opinião sobre este final.

10. O final do conto A Estrela surpreende de certa forma o leitor. Repara no que diz o narrador:
"O pai fazia força cá de baixo, toda a gente ia empurrando também, menos a mãe que nem queria ver e tapava mesmo os olhos, lembrando apenas aos santos das suas relações que era altura de fazerem alguma coisa. E eles fizeram."
• Repara agora, que, ao contrário do que se espera, aconteceu o seguinte:
• "Pedro escorregou por ele abaixo até à bola de pedra. E então, desequilibrou-se, e, de braços abertos, veio pelo ar estampar-se cá em baixo contra as pedras do adro. Toda a gente chorou a sua morte."
• Assinala o que pretenderá o autor do conto com este final.