1.6.09

A Relíquia

Foi-me doce, ao penetrar na sala, encontrar os dilectos amigos, com casacos sérios, de pé, alargando para mim os braços extremosos. A titi pousava no sofá, tesa, desvanecida, com cetins de festa e com jóias. E ao lado um padre muito magro vergava a espinha com os dedos enclavinhados no peito – mostrando numa face chupada dentes afiados e famintos. Era o Negrão. Dei-lhe dois dedos, secamente:
– Estimo vê-lo por cá…
– Grandíssima honra para este seu servo! – ciciou ele, puxando os meus dedos para o coração.
E, mais vergado o dorso servil, correu a erguer o abat-jour do candeeiro – para que a luz me banhasse, e se pudesse ver, na madureza do meu semblante, a eficácia da minha peregrinação.
(…)
No entanto em torno tumultuavam as curiosidades amigas: “E a saudinha?”
“Então, Jerusalém?” “Que tal as comidas?…”
Mas a titi bateu com o leque no joelho, num receio que tão familiar alvoroço importunasse S. Teodorico. E o Negrão acudiu, com zelo melífluo:
– Método, meus senhores, método!… Assim todos à uma não se goza... É melhor deixarmos falar o nosso interessante Teodorico!...
Detestei aquele nosso, odiei aquele padre. Porque corria tanto mel no seu falar? Porque se privilegiava ele no sofá, roçando a sórdida joelheira da calça pelos castos cetins da titi?
Mas o Dr. Margaride, abrindo a caixa de rapé, concordou que o método seria mais profícuo…
– Aqui nos sentamos todos, fazemos roda, e o nosso Teodorico conta por ordem todas as maravilhas que viu!
(…)
E foi com os olhos nele, como no mais douto, que eu disse a partida de Alexandria numa tarde de tormenta: o tocante momento em que uma santa irmã de caridade (que estivera já em Lisboa e que ouvira falar da virtude da titi) me salvara das águas salgadas um embrulho em que eu trazia
terra do Egipto, da que pisara a Santa Família; a nossa chegada a Jafa, que, por um prodígio, apenas eu subira ao tombadilho, de chapéu alto e pensando na titi, se coroara de raios de sol…
– Magnífico! – exclamou o Dr. Margaride. – E diga, meu Teodorico…
Não tinham consigo um sábio guia, que lhes fosse apontando as ruínas, lhes fosse comentando…
– Ora essa, Dr. Margaride! Tínhamos um grande latinista, o padre Potte!

Eça de Queirós, A Relíquia, Col. Mundo das Letras, Porto Editora



I

1. Situa o excerto na obra, referindo os acontecimentos mais directos que o antecederam e que
se lhe seguiram.

2. Na sala, com a titi, entre os “dilectos amigos” do costume, encontra-se uma personagem que
Teodorico vai ver pela primeira vez: o padre Negrão.
2.1. Caracteriza-o, baseando-te em elementos textuais.
2.2. Comenta o efeito que as atitudes do padre Negrão têm sobre Teodorico.
2.3. Explica de que forma o apelido do padre – Negrão – pode ser simbólico em relação aos acontecimentos futuros da vida de Teodorico e à participação que o próprio padre tem neles.

3. A titi não é, neste momento da intriga, a mesma D. Patrocínio dos capítulos anteriores.
3.1. Assinala uma passagem que esclareça a forma como D. Patrocínio encara, agora, o sobrinho
e explica-a.

4. Explica por que razão a última frase de Teodorico vem evidenciar a sua faceta de mentiroso descarado.

5. Encontra, no texto, três exemplos que consideres mais significativos da linguagem e estilo de Eça de Queirós.


II

1. “Tínhamos um grande latinista, o padre Potte!”
1.1. Analisa sintacticamente esta frase simples.
1.2. Indica, em cada uma das frases seguintes, a função sintáctica da expressão destacada:
a. Pedi ao padre Potte a sua bênção.
b. Chamou o padre Potte para jantar.
c. Adormeceu profundamente o padre Potte.
d. Trouxe uma recordação do padre Potte.
e. Ele parece o padre Potte.


III

1. Recordando o estudo da obra que fizeste nas aulas, elabora o retrato da personagem D. Patrocínio das Neves, inserindo-a no espaço social em que ela se movimenta.