1.6.09

A morte de Pedro da Maia


Afonso, então, puxou-lhe o braço quase com aspereza.
– Pedro! Deixa arranjar o quarto! Desce um momento.
Ele seguiu maquinalmente o pai à livraria, mordendo o charuto apagado que desde tarde conservava na mão. Sentou-se longe da luz, ao canto do sofá, ali ficou mudo e entorpecido. Muito tempo só os passos lentos do velho, ao comprido das altas estantes, quebraram o silêncio em que toda a sala ia adormecendo. Uma brasa morria no fogão. A noite parecia mais áspera. Eram de repente vergastadas de água contra as vidraças, trazidas numa rajada, que longamente, num clamor teimoso, faziam escoar um dilúvio dos telhados; depois havia uma calma tenebrosa, com uma sussurração distante de vento fugindo entre ramagens; nesse silêncio as goteiras punham um pranto lento; e logo uma corda de vendaval corria mais furioso, envolvia a casa num bater de janelas, redemoinhava, partia com silvos desolados.
– Está uma noite de Inglaterra – disse Afonso, debruçando-se a espertar o lume.
Mas a esta palavra Pedro erguera-se, impetuosamente. Decerto o ferira a ideia de Maria, longe, num quarto alheio, agasalhando-se no leito do adultério entre os braços do outro. Apertou um instante a cabeça nas mãos, depois veio junto do pai, com o passo mal firme, mas a voz muito calma:
– Estou realmente cansado, meu pai, vou-me deitar. Boa noite… Amanhã conversaremos mais.
Beijou-lhe a mão e saiu devagar. (…)
Então sem ruído, subiu ao quarto de Pedro. Havia uma fenda clara, entreabriu a porta. O filho escrevia, à luz de duas velas, com o estojo aberto ao lado. Pareceu espantado de ver o pai: e na face que ergueu, envelhecida e lívida, dois sulcos negros faziam-lhe os olhos mais refulgentes e duros.
– Estou a escrever – disse ele. (…)
No seu quarto, ao lado da livraria, Afonso não pôde sossegar, numa opressão, uma inquietação que a cada momento o fazia erguer sobre o travesseiro, escutar: agora, no silêncio da casa e do vento que calmara, ressoavam por cima lentos e contínuos, os passos de Pedro.
A madrugada clareava. Afonso ia adormecendo – quando de repente um tiro atroou a casa. Precipitou-se do leito, despido e gritando: um criado acudia também com uma lanterna. Do quarto de Pedro, ainda entreaberto, vinha um cheiro a pólvora; e aos pés da cama, caído de bruços, numa poça de sangue que se ensopava no tapete, Afonso encontrou seu filho morto, apertando uma pistola na mão.

Eça de Queirós, Os Maias, cap. II.



I

Lê atentamente o excerto e responde às questões com clareza e precisão.

1. Situa o excerto na estrutura interna da obra.

2. Divide-o em momentos, sintetizando numa frase o respectivo conteúdo.

3. Caracteriza Pedro da Maia.
3.1 Relaciona a tempestade com o estado de espírito da personagem.

4. A morte próxima de Pedro da Maia é anunciada por diferentes indícios.
4.1 Transcreve exemplos textuais que ilustrem a afirmação anterior.

5. Identifica os recursos estilísticos presentes na expressão «e na face que ergueu, envelhecida e lívida, dois sulcos negros faziam-lhe os olhos mais refulgentes e duros» (ls. 17 e 18).

6. Analisa, interpretando, o estado psicológico de Afonso «No seu quarto ao lado da livraria».

7. Mostra que o final trágico da vida de Pedro da Maia é uma conclusão lógica derivada da concepção naturalista desta personagem.

8. Refere as consequências futuras do suicídio de Pedro.
8.1 Esclarece a importância que esse acto desesperado assume para a compreensão da intriga principal.


II

Com base no conhecimento que possuis da obra Os Maias, elabora o comentário (texto com o limite máximo de 200 palavras e limite mínimo de 100 palavras) da frase:

«Santa Olávia, Coimbra, Lisboa, Sintra, O Ramalhete, Vila Balzac, a Toca são mais do que simples cenários, uma vez que, sendo distintas as suas dimensões específicas, é também distinto o peso de que desfrutam na economia do romance.»

História da Literatura Portuguesa, Ed. Alfa.