28.6.09

A Estrela


A estrela ainda lá está.
Toda a aldeia achou bem. Que aquilo é que era um pai. Que aquilo é que sim. Pedro ia ouvindo tudo sem ter opiniões, que também lhe não pediam. E muito calmo, com a estrela nas mãos, meteu pela porta da torre. As pessoas esperaram algum tempo que ele aparecesse lá no alto da torre. E ele apareceu finalmente, a estrela brilhando ainda mais entre os sinos, como se houvesse lá uma fogueira. As escadas do Governo estavam já encostadas no seu lugar para uma subida mais fácil. Mas Pedro, quando toda a gente supunha que ele ia meter por elas, desapareceu pela escadinha interior que ia dar à de ferro, que ficava de fora. O pai ainda lhe berrou cá de baixo:
- Agarra-te às escadas! Não vás por aí! Sobe pelas escadas!
Mas ele nem olhou e logo desapareceu. Em baixo, todos esperavam em silêncio. E ele voltou enfim a aparecer com a estrela entalada na cintura e que mesmo assim iluminava todo o largo. Muito ligeiro, subiu até ao varão de ferro. Mas faltava subir até ao galo e aos quatro pontos cardeais. O pai fazia força cá de baixo, toda a gente ia empurrando também, menos a mãe, que nem queria ver e tapava mesmo os olhos, lembrando apenas aos santos das suas relações que era a altura de fazerem alguma coisa. E eles fizeram. Pedro, com efeito, rapidamente trepava pelo varão de ferro até ao galo e encavalitava-se por cima do Norte-Sul-Este-Oeste. E, devagar, tirou a estrela do cinto. Era linda, brilhava no ar. E então, com jeito, segurando-a na mão, pô-la outra vez no seu lugar. Toda a gente estava a rebentar, sem poder dizer nada. De modo que, ao verem a estrela finalmente no seu sítio, largaram todos o "ah!" que competia mas que saiu como um urro, com a força toda que tinham entalada na garganta. Nem mesmo repararam que assim que foi posta no seu lugar a estrela começou logo a brilhar menos, embora brilhasse muito. E ou fosse porque o "ah!" teve força a mais e o assustou ou porque não fincou bem os pés no varão de ferro, Pedro escorregou por ele abaixo até à bola de pedra. E então desequilibrou-se, e, de braços abertos, veio pelo ar estampar-se cá em baixo contra as pedras do adro.
Toda a gente chorou a sua morte. E o Cigarra, que andou de luto um ano inteiro, fez mesmo uns versos sobre ele para os cantar depois à viola. Já passaram muitos anos e ainda hoje se cantam. A estrela ainda lá está. Toda a gente a conhece.

Vergílio Ferreira, "A Estrela", in Contos


I

1. Explica, por palavras tuas, o significado das seguintes expressões:
a) "Meteu pela porta da torre..."
b) "Com a estrela entalada na cintura..."
c) "Toda a gente estava a rebentar, sem poder dizer nada."
d) "Toda a gente chorou a sua morte."

2. Com dados do texto, completa, no teu caderno diário, as frases que se seguem:
a) Se a estrela não brilhasse tanto ____.
b) A mãe de Pedro ____.
c) O pai de Pedro ____.
d) Todos ____.
e) Pedro ____ porque ____.
f) A estrela.___________ e até hoje.

3. Em que parte da estrutura global do conto A Estrela se insere este excerto? Justifica a tua resposta.

4. Caracteriza a personagem principal do conto e justifica o seu comportamento neste momento.


II

1. Divide e classifica as orações das seguintes frases:
a) "Mas ele nem olhou e logo desapareceu."
b) "E ou fosse porque o "ah!" teve força a mais e o assustou ou porque não fincou bem os pés no varão de ferro, Pedro escorregou por ele abaixo até à bola de pedra."
c) "Já passaram muitos anos e ainda hoje se cantam."
1.1. Classifica as formas verbais da frase da alínea c).