1.6.09

E saio. A noite pesa, esmaga.


beco_curtumes1.jpg image by ameliapais

E saio. A noite pesa, esmaga. Nos
Passeios de lajedo arrastam-se as impuras.
Ó moles hospitais! Sai das embocaduras
Um sopro que arrepia os ombros quase nus.

Cercam-me as lojas, tépidas. Eu penso
Ver círios laterais, ver filas de capelas,
Com santos e fiéis, andores, ramos, velas,
Em uma catedral de um comprimento imenso.

As burguesinhas do Catolicismo
Resvalam pelo chão minado pelos canos;
E lembram-me, ao chorar doente dos pianos,
As freiras que os jejuns matavam de histerismo.

Num cutileiro, de avental, ao torno,
Um forjador maneja um malho, rubramente;
E de uma padaria exala-se, inda quente,
Um cheiro salutar e honesto a pão no forno.

E eu que medito um livro que exacerbe,
Quisera que o real e a análise mo dessem;
Casas de confecções e modas resplandecem;
pelas vitrines olha um ratoneiro imberbe.

Longas descidas! Não poder pintar
Com versos magistrais, salubres e sinceros,
A esguia difusão dos vossos reverberos,
E a vossa palidez romântica e lunar!

Que grande cobra, a lúbrica pessoa
Que espartilhada escolhe uns xales com debuxo!
Sua excelência atrai, magnética, entre luxo
Que ao longo dos balcões de mogno se amontoa.

E aquela velha, de bandós! Por vezes,
A sua traîne imita um leque antigo, aberto,
Nas barras verticais, a duas tintas. Perto,
Escarvam, à vitória, os seus mecklemburgueses.

Desdobram-se tecidos estrangeiros;
Plantas ornamentais secam nos mostradores;
Flocos de pós de arroz pairam sufocadores,
E em nuvens de cetins requebram-se os caixeiros.

Mas tudo cansa! Apagam-se nas frentes
Os candelabros, como estrelas, pouco a pouco;
Da solidão regouga um cauteleiro rouco;
Tornam-se mausoléus as armações fulgentes.

«Dó da miséria!… Compaixão de mim!…»
E, nas esquinas, calvo, eterno, sem repouso,
Pede-me sempre esmola um homenzinho idoso,
Meu velho professor nas aulas de Latim!

Cesário Verde, O Livro de Cesário Verde


I

1. O poeta deambula pela cidade.
1.1 Interpreta a forma como ele sente «a noite».
1.2 Mostra, através de citações textuais, que o autor contrasta o parasitismo com o trabalho útil da cidade.
1.3 Identifica as sensações presentes na quarta estrofe.
1.3.1 Clarifica a intencionalidade da sua utilização.

2. Cesário pretende que o «real» e a «análise» constituam os fundamentos da sua crítica poética. Justifica.

3. Nas estrofes 6 a 8 a observação e intencionalidade crítica centram-se em figuras femininas.
3.1 Como são caracterizadas?
3.2 De que modo a nona estrofe evidencia as discrepâncias sociais?

4. Comprova que as duas últimas estrofes se apresentam como uma conclusão do observado anteriormente.


II

Escreve um texto descritivo da rua/bairro onde habitas (mínimo 200 palavras, máximo 250).