1.6.09

Cena IV e V


CENA IV
Telmo (só)

– Virou-se-me a alma toda com isto: não sou já o mesmo homem. Tinha um pressentimento do que havia de acontecer... parecia-me que não podia deixar de suceder... e cuidei que o desejava enquanto não veio. Veio, e fiquei mais aterrado, mais confuso que ninguém! Meu honrado amo, o filho do meu nobre senhor está vivo... o filho que eu criei nestes braços... Vou saber novas certas dele, no fim de vinte anos de o julgarem todos perdido; e eu, eu que sempre esperei, que sempre suspirei pela sua vinda... – era um milagre que eu esperava sem o crer! – eu agora tremo... É que o amor destoutra filha, desta última filha, é maior, e venceu... venceu… apagou o outro… Perdoai-me, Deus, se é pecado. Mas que pecado há-de haver com aquele anjo? Se ela me vivirá, se escapará desta crise terrível? Meu Deus, meu Deus, (ajoelha) levai o velho que já não presta para nada, levai-o por quem sois! (Aparece o Romeiro à porta da esquerda, e vem lentamente aproximando-se de Telmo que não dá por ele) Contentai-vos com este pobre sacrifício da minha vida, Senhor, e não me tomeis dos braços o inocentinho que eu criei para vós, Senhor, para vós... mas ainda não, não mo leveis ainda. Já padeceu muito, já traspassaram bastantes dores aquela alma; esperai-lhe com a da morte algum tempo!


CENA V
Telmo e Romeiro

Romeiro – Que não oiça Deus o teu rogo!
Telmo (sobressaltado) – Que voz! – Ah! é o romeiro. Que me não oiça Deus!
Porquê?
Romeiro – Não pedias tu por teu desgraçado amo, pelo filho que criaste?
Telmo (à parte) – Já não sei pedir senão pela outra. (Alto) E que pedisse por ele! ou por outrem, porque não me há-de ouvir Deus, se lhe peço a vida de um inocente?
Romeiro – E quem te disse que ele o era?
Telmo – Esta voz... esta voz…! Romeiro, quem és tu?
Romeiro (tirando o chapéu e alevantando o cabelo dos olhos) – Ninguém, Telmo; ninguém, se nem já tu me conheces!
Telmo (deitando-se-lhe às mãos para lhas beijar) – Meu amo, meu senhor... sois vós? Sois, sois. D. João de Portugal, oh, sois vós, senhor?


Almeida Garrett, Frei Luís de Sousa,
in Edição Didáctica de Luís Amaro de Oliveira, Porto Editora



I

1. Integra estas cenas na estrutura da obra, evidenciando em que ponto do conflito dramático as
personagens se encontram.

2. Identifica os sentimentos que Telmo expressa no monólogo da cena IV.

3. Analisa a reacção do Romeiro às palavras finais de Telmo na referida cena.

4. Comenta a fala proferida à parte por Telmo na cena V.

5. Explicita as funções das indicações cénicas dadas ao longo do texto.

6. Descreve, de forma sintética, as sucessivas atitudes de Telmo face ao Romeiro na cena V.


II

“Contento-me para a minha obra com o título modesto de drama; (…) porque se na forma desmerece da categoria, pela índole há-de ficar pertencendo sempre ao antigo género trágico.”
Almeida Garrett, Memória ao Conservatório Real

1. Num texto expositivo-argumentativo, que tenha entre cento e oitenta e duzentas palavras, comprova a justeza da afirmação de Garrett, pondo em evidência os elementos que aproximam Frei Luís de Sousa da tragédia clássica.