1.6.09

Capítulo X



– Vamos nós ver as mulheres – disse Carlos.
Seguiram devagar ao comprido da tribuna. Debruçadas no rebordo, numa fila muda, olhando vagamente, como duma janela em dia de procissão, estavam ali todas as senhoras que vêm no High Life dos jornais, as dos camarotes de S. Carlos, as das terças-feiras dos Gouvarinhos. A maior parte tinha vestidos sérios de missa. Aqui e além um desses grandes chapéus emplumados à Gainsborough, que então se começavam a usar, carregava duma sombra maior o tom trigueiro duma carinha miúda. E na luz franca da tarde, no grande ar da colina descoberta, as peles apareciam murchas, gastas, moles, com um baço de pó-de-arroz.
Carlos cumprimentou as duas irmãs do Taveira, magrinhas, loirinhas, ambas correctamente vestidas de xadrezinho: depois a viscondessa de Alvim, nédia e branca, com o corpete negro reluzente de vidrilhos, tendo ao lado a sua terna inseparável, a Joaninha Vilar, cada vez mais cheia, com um quebranto cada vez mais doce nos olhos pestanudos. Adiante eram as Pedrosos, as banqueiras, de cores claras, interessando-se pelas corridas, uma de programa na mão, a outra de pé e de binóculo estudando a pista. Ao lado, conversando com Steinbroken, a condessa de Soutal, desarranjada, com um ar de ter lama nas saias. Numa bancada isolada, em silêncio, Vilaça com duas damas de preto.
A condessa de Gouvarinho ainda não viera. E não estava também aquela que os olhos de Carlos procuravam, inquietamente e sem esperança.
– É um canteirinho de camélias meladas – disse o Taveira, repetindo um dito do Ega.
Carlos, no entanto, fora falar à sua velha amiga D. Maria da Cunha que, havia momentos, o chamava com o olhar, com o leque, com o seu sorriso de boa mamã. Era a única senhora que ousara descer do retiro ajanelado da tribuna, e vir sentar-se em baixo, entre os homens: mas, como ela disse, não aturara a seca de estar lá em cima perfilada, à espera da passagem do Senhor dos Passos. E, bela ainda sob os seus cabelos já grisalhos, só ela parecia divertir-se ali, muito à vontade, com os pés pousados na travessa duma cadeira, o binóculo no regaço, cumprimentada a cada instante, tratando os rapazes por “meninos”... Tinha consigo uma parenta que apresentou a Carlos, uma senhora espanhola, que seria bonita se não fossem as olheiras negras, cavadas até ao meio da face. Apenas Carlos se sentou ao pé dela, D. Maria perguntou-lhe logo por esse aventureiro do Ega. Esse aventureiro, disse Carlos, estava em Celorico compondo uma comédia para se vingar de Lisboa, chamada “O Lodaçal”...
– Entra o Cohen? – perguntou ela, rindo.
– Entramos todos, sr.ª D. Maria. Todos nós somos lodaçal...

Eça de Queirós, Os Maias, Col. Mundo das Letras, Porto Editora



I

1. Localiza este excerto na estrutura global da obra, explicitando a sua relação com o título – Os Maias – e com o subtítulo – Episódios da Vida Romântica.
2. Este excerto pode dividir-se em duas partes lógicas.
2.1. Assinala-as e sintetiza o conteúdo de cada uma delas.
3. Atenta na primeira parte.
3.1. Caracteriza, de forma genérica e nas tuas próprias palavras, as “mulheres” que se encontravam na tribuna.
3.2. Identifica, no segundo parágrafo, dois recursos estilísticos característicos da linguagem e estilo de Eça de Queirós.
3.3. Evidencia o valor expressivo dos diminutivos presentes no início do terceiro parágrafo.
3.4. No quarto parágrafo, refere-se que “(…) não estava também aquela que os olhos de Carlos procuravam, inquietamente e sem esperança.”.
A quem se refere o pronome demonstrativo?
3.5. Comenta a frase de Ega que Taveira repete: “É um canteirinho de camélias meladas”.
4. Relê, agora, a segunda parte do excerto.
4.1. D. Maria da Cunha destaca-se claramente de entre as outras personagens femininas. Explica porquê.
4.2. Comenta o título que Ega pretende dar à comédia que está escrevendo em Celorico: “O Lodaçal”.


II

1. Passa para o discurso indirecto os dois últimos parágrafos do texto.
2. “Era a única senhora que ousara descer do retiro ajanelado da tribuna (…)”
2.1. Indica o tempo e o modo da forma verbal simples destacada.
2.1.1. Indica a forma composta correspondente.
2.2. Divide e classifica as orações desta frase complexa.
2.3. Analisa sintacticamente a oração subordinada.


III

“Carlos não fraquejou por causa da educação recebida, mas apesar da educação recebida.”
1. Numa composição concisa (entre cento e cinquenta e cento e oitenta palavras) e estruturada em forma de texto expositivo-argumentativo, discute a veracidade desta afirmação de Jacinto do Prado Coelho, fundamentando-te no estudo que fizeste da obra Os Maias.