22.6.09

Acho tão Natural que não se Pense




Acho tão natural que não se pense
Que me ponho a rir às vezes, sozinho,
Não sei bem de quê, mas é de qualquer cousa
Que tem que ver com haver gente que pensa ...

Que pensará o meu muro da minha sombra?
Pergunto-me às vezes isto até dar por mim
A perguntar-me cousas. . .
E então desagrado-me, e incomodo-me
Como se desse por mim com um pé dormente. . .

Que pensará isto de aquilo?
Nada pensa nada.
Terá a terra consciência das pedras e plantas que tem?
Se ela a tiver, que a tenha...
Que me importa isso a mim?
Se eu pensasse nessas cousas,
Deixaria de ver as árvores e as plantas
E deixava de ver a Terra,
Para ver só os meus pensamentos ...
Entristecia e ficava às escuras.
E assim, sem pensar tenho a Terra e o Céu.

Alberto Caeiro, in "O Guardador de Rebanhos - Poema XXXIV



I

1. Explicite as características do "eu" reveladas na primeira estrofe do poema.

2. Analise os sentimentos expressos no verso 8: "E então desagrada-me, e incomodo-me".

3. Atente na frase "Que me importa isso a mim?" (v.14)
3.1. Explique o s eu significado no contexto em que surge.
3.2. Refira os efeitos produzidos pela marca de discurso oral presente na frase, relacionando-a com outros traços desse discurso presentes no poema.

4. "E assim, sem pensar, tenho a terra e o Céu." (v.20)
4.1. Comente o sentido deste verso enquanto conclusão do poema e da mensagem nele veiculada.


II

A valorização do ato de ver e a harmonia com a natureza são duas das linhas temáticas da obra de Alberto Caeiro.
Fazendo apelo à sua experiência de leitura, apresente, de entre as duas linhas referidas, aquela que para si se revelou mais marcante na poesia deste heterónimo de Fernando Pessoa. Desenvolva a sua opinião num texto expositivo-argumentativo bem estruturado, de 100 a 150 palavras.