19.5.09

Sermão de Santo António




Antes, porém, que vos vades, assim como ouvistes os vossos louvores, ouvi também agora as vossas repreensões. Servir-vos-ão de confusão, já que não seja de emenda. A primeira cousa que me desedifica, peixes, de vós, é que vos comeis uns aos outros. Grande escândalo é este, mas a circunstância o faz ainda maior. Não só vos comeis uns aos outros, senão que os grandes comem os pequenos. Se fora pelo contrário, era menos mal. Se os pequenos comeram os grandes, bastara um grande para muitos pequenos; mas como os grandes comem os pequenos, não bastam cem pequenos, nem mil, para um só grande. Olhai como estranha isto Santo Agostinho: (…) Os homens, com suas más e perversas cobiças, vêm a ser como os peixes, que se comem uns aos outros. (...) Santo Agostinho, que pregava aos homens, para encarecer a fealdade deste escândalo, mostrou-lho nos peixes; e eu, que prego aos peixes, para que vejais quão feio e abominável é, quero que o vejais nos homens. Olhai, peixes, lá do mar para a terra. Não, não: não é isso o que vos digo. Vós virais os olhos para os matos e para o Sertão? Para cá, para cá; para a Cidade é que haveis de olhar. Cuidais que só os Tapuias se comem uns aos outros? Muito maior açougue é o de cá, muito mais se comem os brancos. Vedes vós todo aquele bulir, vedes todo aquele andar, vedes aquele concorrer às praças e cruzar as ruas; vedes aquele subir e descer as calçadas, vedes aquele entrar e sair sem quietação nem sossego? Pois tudo aquilo é andarem buscando os homens como hão-de comer, e como se hão-de comer.
Morreu algum deles, vereis logo tantos sobre o miserável a despedaçá-lo e comê-lo. Comem-no os herdeiros, comem-no os testamenteiros, comem-no os legatários, comem-no os acredores; comem-no os oficiais dos órfãos, e os dos defuntos e ausentes; come-o o Médico, que o curou ou ajudou a morrer; come-o o sangrador que lhe tirou o sangue; come-o a mesma mulher, que de má vontade lhe dá para a mortalha o lençol mais velho da casa; come-o o que lhe abre a cova, o que lhe tange os sinos, e os que, cantando, o levam a enterrar; enfim, ainda o pobre defunto o não comeu a terra, e já o tem comido toda a terra. (...)
(…) Nestas palavras, pelo que vos toca, importa, peixes, que advirtais muito outras tantas cousas, quantas são as mesmas palavras. Diz Deus que comem os homens não só o seu povo, senão declaradamente a sua plebe: Plebem meam, porque a plebe e os plebeus, que são os mais pequenos, os que menos podem e os que menos avultam na República, estes são os comidos. E não só diz que os comem de qualquer modo, senão que os engolem e os devoram: Qui devorant. Porque os grandes que têm o mando das Cidades e das Províncias, não se contenta a sua fome de comer os pequenos um por um, ou poucos a poucos, senão que devoram e engolem os povos inteiros. (…) E de que modo os devoram e comem? (…) não como os outros comeres, senão como pão. A diferença que há entre o pão e os outros comeres, é que para a carne, há dias de carne, e para o peixe, dias de peixe, e para as frutas, diferentes meses no ano; porém o pão é comer de todos os dias, que sempre e continuadamente se come: e isto é o que padecem os pequenos. São o pão quotidiano dos grandes; e assim como o pão se come com tudo, assim com tudo e em tudo são comidos os miseráveis pequenos, não tendo nem fazendo ofício em que os não carreguem, em que os não multem, em que os não defraudem, em que os não comam, traguem e devorem (…) Parece-vos bem isto, peixes? (…)

Padre António Vieira, Sermão de Santo António


I

1. Neste excerto, Vieira vai censurar os peixes pelos seus “vícios”.
1.1. Identifica a razão que está na origem da primeira repreensão que lhes é dirigida.

2. Demonstra, por palavras tuas, que a atitude do Padre António Vieira é oposta àquela que teve
Santo Agostinho.

3. “Vós virais os olhos para os matos e para o Sertão? Para cá, para cá; para a Cidade é que haveis de olhar.”
3.1. Explicita a ordem que Vieira dá aos peixes no excerto anterior.
3.2. Assinala as razões que presidiram a essa ordem do pregador.

4. “São o pão quotidiano dos grandes; e assim como o pão se come com tudo, assim com tudo e
em tudo são comidos os miseráveis pequenos (…)”.
Explica esta passagem, referindo-te à importância da alegoria na construção de novos sentidos.

5. Selecciona, no excerto, um exemplo de cada um dos seguintes recursos:
• apóstrofe;
• metáfora;
• enumeração.


II

1. “Santo Agostinho, que pregava aos homens, para encarecer a fealdade deste escândalo, mostrou-lho nos peixes (…)”.
1.1. Classifica a oração sublinhada.
1.2. Faz a análise sintáctica da seguinte oração: “Santo Agostinho (…) mostrou-lho nos peixes”.


III

1. No mundo em que vivemos, todos os dias ouvimos discutir questões polémicas acerca das quais também temos a nossa opinião.
Temas como a violência no desporto, a legalização de emigrantes em situação irregular, a interrupção voluntária da gravidez, a substituição de penas de prisão por serviços à comunidade estão na ordem do dia.
Escolhe um tema, de entre os que te apresentamos, e elabora sobre ele um texto argumentativo que tenha entre cento e sessenta e duzentas palavras.
Antes de começares, estrutura devidamente o teu texto, definindo bem a tese que vais defender e os argumentos que vais apresentar.
Articula bem o teu discurso através de conectores textuais que confiram coerência ao teu texto.